Uma pergunta recorrente no que se refere a ações voltadas à parentalidade nas empresas é: por onde começar um trabalho com mães e pais?

De bate pronto, a resposta é: começando. Não muito diferente de como é a chegada de um bebê, o começo deste trabalho requer acolhimento, observação, experimentação, troca. É o estar e descobrir juntos que permitem entender e atender às necessidades e demandas existentes e, claro, às que surgem no caminho.

Como na chegada de um bebê, em que há condições mínimas para recebê-lo, é condição essencial no trabalho com a parentalidade não restringi-la ao biológico e/ou jurídico. Sabemos que a parentalidade não se dá pelo corpo, embora possa ser favorecida por ele. Se assim fosse, não haveriam mães/pais por adoção. Sabemos também que quem exerce a função parental – que permite o bebê constituir-se psiquicamente – nem sempre equivale à pessoa que legalmente reconhece outra como filho ou filha. Isso nos leva a incluir sob o guarda-chuva da parentalidade outros cuidadores primordiais (que exercem tal função), como avós, madrastas, padrastos, entre outros.

Uma vez que a parentalidade não está relacionada exclusivamente à figura da mãe ou do pai, entendemo-la como a “produção de discursos e as condições oferecidas pela geração anterior para que uma nova geração se constitua subjetivamente em uma determinada época” (Iaconelli, V. “Sobre as origens: muito além da mãe”. In: Parentalidade. Organização de Teperman, D., Garrafa, T. e Iaconelli, V. Belo Horizonte: Autêntica, 2020, p. 17). Assim, o trabalho com a parentalidade é, ao mesmo tempo, um trabalho com a primeira infância. Daí a urgência em começar, do começo. É no começo da vida que temos a maior plasticidade neuronal, resultando no maior número de sinapses e, portanto, em condições privilegiadas para o desenvolvimento infantil. É também no começo – na decisão por ter um filho, nas vivências da gestação, parto e puerpério – que surgem marcas importantes no bebê, na mãe, no pai, na família. A qualidade dessas marcas é influenciada pelas características e histórias pessoais, pelas heranças familiares e culturais, pelo cuidado recebido e, sobretudo, pelas condições que cada um tem para elaborar essas vivências e para criar repertório próprio que facilite lidar com desafios da parentalidade. Um repertório que, muitas vezes, precisa estar na contramão das inúmeras “receitas” de como ser mãe, pai e criar um bebê ou criança.

Cada vez mais assistimos a famílias sofrendo em decorrência de tentar seguir modelos de criação/parentalidade que se mostram eficientes (quando não, perfeitos). Nessa tentativa de seguir com algo que não lhes atente ou faz sentido, as possibilidades de estar e descobrir juntos, no encontro, ficam empobrecidas. O “tem que” associado à busca pela performance parental entram em lugar de experimentar e até mesmo de poder falhar. Um exemplo: brincar com a criança de jeito x ou y para ela ser estimulada, e não por que brincar é um gesto espontâneo que se dá, ou deveria se dar, na relação – e, por isso, estimula.

Tocando no ponto da performance parental, este é um aspecto importante para as empresas considerarem em suas ações voltadas à parentalidade. Diferentemente do trabalho, que exige (alta) performance, o exercício da parentalidade deve ser suficientemente bom – conceito desenvolvido pelo pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott e que pode ser compreendido aqui.

O paradigma da mãe/pai exemplar e que dá (ainda que idealmente) conta de tudo precisa ser quebrado. Falhas ocorrem. As pequenas são necessárias na construção da parentalidade e na constituição psíquica. Portanto, quanto mais se evitar soluções que oferecem “tudo” ou que colocam respostas na voz do especialista, melhor. Afinal, não existe construção sem elaboração e criação. E para isso é necessário espaço – para pensar, para entrar em contato consigo e com o outro, para formular questões, para se fazer ser, e ser.

Para começar um trabalho com a parentalidade é preciso escutar quem pretende ter, espera, tem ou cuida de bebês e crianças, o que inclui quem eventualmente os perde. Como cada pessoa e família são únicas, por mais bem intencionadas e sustentadas que sejam as ações e benefícios parentais, sua oferta e uso precisam ser singular, de acordo com as necessidades e demandas de cada mãe, pai, cuidador, bebê, criança, família e comunidade. Então, para começar, abra a roda, dialogue, ofereça as condições mínimas para que essa construção aconteça e siga de olhos e ouvidos bem abertos, sem perder de vista que parentalidade e subjetividade se tecem com presença e gestos simples.

 

Imagem: Marcos Paulo Prado, por Pixabay.

 

Texto escrito por Patrícia L. Paione Grinfeld.

A Patrícia é psicóloga (PUC-SP), com pós-graduação em psicoterapia de casal e família (PUC-SP) e em psicanálise na perinatalidade e parentalidade (Instituto Gerar). Cursa especialização em estimulação precoce/clínica transdisciplinar do bebê (Instituto Travessias da Infância, Centro de Estudos Lydia Coriat-SP e UniFVC). Foi sócia-fundadora e integrante da equipe do Instituto Therapon Adolescência. Da atuação na saúde mental, migrou para a área comercial, trabalhando com atendimento ao cliente e comércio eletrônico. Em 2004 a carreira ficou de lado para dedicar-se à família. No retorno às atividades profissionais, além da atuação clínica, foi técnica do Programa Palavra de Bebê do Instituto Fazendo História. Desde 2012 é sócia-fundadora da Ninguém Cresce Sozinho.