“Não sei brincar com bebês.”

“Se esconder atrás da cortina, é brincar?”

“Tem um monte de brinquedo, mas gosta mesmo é dos potes da cozinha.”

 

Estas falas, literais ou com alguma variação, vez ou outra são manifestadas pelos responsáveis por bebês que participam das atividades oferecidas pela Ninguém Cresce Sozinho. Da negativa (não saber brincar), passando pela dúvida (é brincar?), muitos concluem que brincar está atrelado à simplicidade e ao afeto. Ótimo!

Para se desenvolver, um bebê necessita que seu corpo, choro, angústia ou outras manifestações sejam acolhidas, sustentadas por um outro corpo, um olhar, palavras e atitudes que o reconheçam como alteridade, uma outra pessoa, com demandas e desejos próprios. Só assim o bebê consegue sair do estado de dependência absoluta de seus primeiros meses de vida em direção à autonomia. Só assim ele poderá experimentar breves separações na presença das pessoas com as quais estabelece os primeiros vínculos afetivos, como quando brinca de se esconder atrás da cortina, paninho ou similar. Logo, nada mais significativo do que bebês se divertirem com potes de cozinha. Potes servem para guardar (acolher, conter); cozinha é lugar de alimento, aquilo que nutre, sustenta. Têm, simbolicamente, o que um bebê precisa para poder se des-envolver (se separar gradualmente) e, por consequência, conseguir brincar com o que e do que quer que (de)seja.

A ideia de não saber brincar com bebês, em geral, aparece vinculada ao entendimento de que existem maneiras – certas – de brincar (e estar) com os bebês, tal qual os brinquedos que têm funções pré-definidas: fazer barulho, apertar, encaixar, balançar, etc. Diante da concepção de que brincar pressupõe um “para que” (propósito) e um “tem que” (rigidez), perde-se a dimensão do espontâneo, como se o gesto que surge a partir do que “vem de dentro” (como a intuição ou a identificação com o bebê brincante que se foi um dia) não valesse ou valesse muito pouco. Ou, fosse um tanto bobo, ridículo. Nessas situações, não se leva em conta que, na busca de um encontro afetuoso com o bebê, estabelecemos com ele um modo mais “infantil” de relacionamento para podermos nos comunicar na “mesma língua”. Não por acaso, também mudamos nosso tom de voz, com falas mais melodiosas, ritmadas; é o chamado manhês.

Além de modos engessados de brincar e do equívoco da tolice, é bastante comum a ideia de que para brincar é preciso haver brinquedo. Se assim o for, como brincar com alguém que mal consegue segurar, apertar ou encaixar um objeto? Eu não sei. E não dá para saber mesmo, porque a expectativa (de como se brinca) fica desalinhada com a necessidade de brincar sem qualquer intenção ou regra.

Como lembra Gandhy Piorski em seu livro Brinquedos do chão: a natureza, o imaginário e o brincar (Editora Peirópolis), brinquedo é toda materialidade que dá suporte à brincadeira, e não apenas os artefatos, predominantemente de borracha, pelúcia ou plástico que colorem as prateleiras de produtos destinados a bebês. Ou seja, para o bebê, brinquedo pode ser o corpo do adulto ou seu próprio corpo, ou um pedaço de qualquer coisa que ele encontra pelo caminho. Para o bebê, é necessário que o adulto possa acreditar que mesmo parecendo tolo ou algo do gênero, fazer caretas, diferentes sons com a boca, cóceguinhas, falar, cantar, ler, e tantos outros gestos despretensiosos, é brincar.

Quando saímos do automático e dedicamos algum tempo – em outras palavras, estamos psiquicamente disponíveis – para, por exemplo, compor as roupas que vestiremos, enfeitar uma mesa, preparar uma comida, fazer uma maquiagem ou cabelo diferentes, estamos brincando. Para brincar não é preciso teoria, técnica, objetivo, meta. Isso é necessário nas competições. Para brincar é preciso de um repertório de experiências que possibilite imaginar, inventar, criar, subverter. Para brincar é preciso estar vivo, viver.

Em tempos de depressões há de se perguntar o quanto não saber brincar com bebês pode estar relacionado a não conseguir brincar – com bebês, com o mundo e consigo mesmo. Se estiver, é fundamental cuidar do brincante adoecido.

 

Imagem: Lica Pereira (em oficina lúdica realizada pela Ninguém Cresce Sozinho).