Lidar com o não é um desafio tanto para pais quanto para profissionais ligados à saúde e à educação. Há muitas maneiras de questionar, condenar ou ratificar a importância dessa palavra que expressa um limite, uma negativa, e, por último, contribui para organização de uma criança no mundo. Quer dizer, o não também direciona a relação que a criança estabelece com os outros, com a cultura e a sociedade em que vive.

Mas, por que será que há tantas questões que envolvem o uso dessa palavra? “Parece que só digo não”, se queixam os pais. Por outro lado, os profissionais de escolas relatam dificuldades em lidar com o limite que parece inexistir para alguns pequenos. Nesse mesmo sentido, pais sofrem quando se dão conta que “só a palavra não dá conta”: a palavra parece insuficiente para fazer parar, fazer calar, sobretudo, para fazer escutar.

Arriscamos afirmar que é justamente nesses casos que dizer não causa angústia, culpa ou desconforto nos pais. Há situações que parecem justificar a posição dos que padecem temerosos: os que trabalham demais e têm pouco tempo a desfrutar com pequenos tão encantadores, os que lutaram longo período para conceber um filho, e aqueles que optam por relações sem conflito, portanto, “melhor não contrariar”.

Nos primeiros anos de vida, as nuances que acomodam esse pequeno núcleo familiar podem denunciar ou encobrir o modo como os bebês e as criancinhas se encontram com os desejos, anseios e até frustrações parentais.  Por essa razão, respeitando a plasticidade no ato de educar, trataremos aqui da importância do não como parada, corte, ato; intervalo que provoca o outro a se reposicionar, a inventar jeitos de aceder ao seu desejo, a recusar o não recebido ou ainda a driblar, com a doce ilusão de que o “outro” não perceba os pezinhos que denunciam quem se esconde por detrás da cortina.

Por que o não?  Iniciamos com os primeiros 18 meses de vida, em que, geralmente os adultos não precisam afirmar um sim para a ação espontânea da criança, e precisam enfatizar o não para o que não pode ir à boca e onde não deve subir ou descer, por exemplo. Até aí estamos todos de acordo? Não! Há quem defenda que o adulto é responsável por salvar a criancinha de todo e qualquer risco e esta, coadjuvante do seu próprio ato, não precisa se envolver com a cena. Sempre advertidos do bom senso, com relação à idade e maturidade emocional da criança, suspeitamos que o não pode ser lido como anteparo simbólico ou prenúncio de frustração. Por qualquer que seja o horizonte que miremos, seguiremos questionando: por que o não?

Desde os primeiros meses de vida, em que a comunicação se dá por meio de palavras dos pais e gestos e balbucios do bebê, ou mesmo nos meses seguintes, com o advento da fala da criança, o sim é usado com menor frequência. O sim aparece quando pequenos gestos de autonomia vão despontando e o adulto aproveita para incentivar o feito, afirmando a ação da criança. Mais tarde, o sim  visa à permanência de um ato ou ao comportamento para com um outro. Ou seja, o sim está posto, é quase universal, enquanto o não interdita e em geral, desagrada.

Referimos-nos ao não educativo que funciona como anteparo para o bebê se organizar no espaço, para a criancinha parar diante do perigo e se amplia de acordo com a circulação social das crianças. Parques, praças e escolas são espaços de exploração da infância e onde, naturalmente, o não aparece como limite para ele próprio ou para o colega ao lado. Digamos que o não educativo é um código de limite e serve para toda a vida, na comunicação com o outro e na relação do ser com a cultura.

Na dinâmica dos cuidados e da inserção da criança na cultura, entretanto, há que se tomar cuidado com o excesso de interdição. Alguns exemplos que citaremos aqui foram vivenciados, mas, só num segundo tempo, ilustram o que muitas vezes os pais nem percebem, e portanto, nem se questionam: quando é que o zelo vira excesso?

Uma cena é relatada por um adulto que rememora sua “infância tolhida” – no parquinho de areia, era imposto à criança estar calçada, mas não deveria deixar entrar areia no sapato. Não devemos estranhar a natural consequência: ao chegar do parquinho, era repreendia pela areia que sujava a casa.

Um garoto com três anos estava numa pracinha e foi convidado por uma criança “desconhecida” para brincar. Espontaneamente, balançou a cabeça indicando a negativa e olhou para a mãe. Esta, tentou autorizar a brincadeira, mas a criança imediatamente repetiu o lembrete daquela manhã. O garoto que fora educado para não falar com pessoas desconhecidas tinha sido relembrado sobre o hábito naquela manhã. Quem relata a história confessa que usava o não excessivamente, nessa e em tantas outras situações, por cuidado e zelo. Mas, compreendeu que o não que proferia dizia do seu temor de que algo ruim pudesse acontecer ao seu filho.

Podemos identificar esse não como palavra que responde ao temor parental, antecipa imaginariamente, mas não contextualiza a situação e, por último, generaliza. Experiência como esta pode apontar sinal de que há um excesso ou exagero na exigência que se faz à criança. É importante estar atento quando as crianças demonstram dificuldades em se fazer cumprirem as exigências do adulto sobre ela. Isso, porque, em geral, as crianças são capazes de dar notícias acerca do excesso de regras e limites, mas  há também casos em que o excesso só é percebido quando algo mais consistente se apresenta como resposta na criança: perda da espontaneidade, embotamento afetivo ou insegurança são exemplos mais frequentes.

Crianças que são educadas à sombra do não podem se recolher e se fechar para evitar o que não agrada e compreender essa ação na quase totalidade de sua expressão. Ou pode encontrar saída na expressão da oposição e ser tomada por insubordinada, mal educada ou mesmo aquela que é sempre “do contra”.

O não contextualizado situa, localiza e direciona a criança naquilo que os pais precisam ou desejam ensinar. O motivo da negação pode ser desconhecido para a criança, mas precisa fazer sentido no contexto sócio cultural no qual a família está inserida. Se a lógica do sentido está impressa, a dinâmica entre proibição e permissão funciona. E porque funciona, a criança vai dar sinais dessa apreensão desde muito cedo. De que maneira?

Os adultos que acompanham as crianças bem de perto, dificilmente, saberão precisar o instante em que o filho se apropria do não; contudo, facilmente se recordarão da sensação de estranhamento que sentiram quando seus pequenos os surpreenderam em situações inesperadas. A  relação com a alimentação, o controle dos esfíncteres e o drible pela palavra são situações que evidenciam o aparecimento de um ser em cena. E, quando a criança aparece, causa.

O bebê não tem o não como palavra, mas usa seu corpo para recusar. E, se o infans é puro sim, como defende René Spitz, autor do livro O sim e o não (Editora Martins Fontes), ousamos afirmar que é como resposta na criança que o não aparece. Antes mesmo do primeiro ano de vida, é possível testemunhar um bebê que começa a comer papinhas, anunciar suas preferências alimentares. Recebe e engole a que lhe é aprazível e cospe o que não é.

Por volta dos dois anos de idade podem sentir muito prazer em proferir não para quase tudo que lhe interessa. Principalmente quando o gesto responde a demanda afetiva de um adulto que pede um abraço ou um beijo, por exemplo. Lembramos de uma garotinha, que aos dois anos, diante de um pai especialmente dedicado e amoroso com ela, dizer ou cantarolar para ele: “proibido papai”! Depois de um tempo, passou a desenhar “cartas” que costumava deixar em lugares de boa visualização para o seu pai. O desenho que fazia incansáveis vezes era: seu pai, enquadrado num círculo vermelho com um corte de proibido. Ela forja o signo de proibido das placas que vê nas ruas e se apropria. Essa leitura nos possibilita suspeitar que ela amplia o jogo simbólico com o pai, convocando-o a se manter no lugar de quem demanda o seu amor: negando, ele deverá demandar ainda mais amor.

Outro modo simbólico que ilustra a negativa como resposta da criança é quando ela fecha a porta do banheiro. Algumas crianças, quando crescem o suficiente, são advertidas de que devem fechar a porta do banheiro ao usarem a privada, mas há também aquelas que surpreende os pais quando, precocemente, logo que desfraldadas, fecham a porta do banheiro. O que será que esse ato marca? Seria possível afirmar que “o fechar da porta” seria barrar o acesso dos pais, deixando-os fora desta cena, ou será que a criança simplesmente imita o que os adultos fazem?

Um garotinho de três anos vai a um banheiro público com seu pai. O pai põe a criança em uma cabine e o adverte para não fechar a porta. Vai à cabine ao lado, fecha a porta e ao sair não encontra o filho do lado de fora da cabine – ele havia se trancado. O pai se arrasta pelo chão, passa de um box a outro pela abertura entre as divisórias das cabines e acessa a cabine do filho. Ao questionar por que fechar a porta, o filho diz: “não sei”. O pai, ainda sob o efeito do susto, adverte o garoto de que jamais ele deverá fechar a porta. A “verdade”, portanto, pôde aparecer para a mãe da criança que, um tempo depois, refez a  pergunta ao garotinho: “queria ser grande igual ao papai”. O pai, por sua vez, se dá conta de que a mensagem que passou para o filho era controversa.

Mas, como imprimir regras que se aplicam de modo diferente para diferentes idades? Esse é um dos desafios da educação: adequar e ajustar o que se proíbe ou se permite a cada giro de crescimento emocional da criança, e o modo de apreensão do não pode indicar essa maturidade.

 

Imagem: Artur Luczka, Pixabay.