Ele me pede um irmãozinho. Eu vou dar um irmãozinho para ele.

À primeira vista, essas duas falas são graciosas. Uma criança querendo um irmão; uma mãe ou um pai, generosos, que lhe dão, ou pretendem lhe dar, o “presente”. 

Não há como negar a ternura que acompanha o desejo por um novo membro na família; menos ainda, a receptividade necessária a esta situação. Conversas, brincadeiras, desenhos, sonhos, rituais, são algumas das muitas formas de construir um lugar para o novo bebê. No entanto, quando um irmãozinho torna-se “presente”, é preciso estar atento à dinâmica familiar que impera. Será que estamos diante de pedidos infantis sendo atendidos como um passe de mágica, como se não houvesse o desejo e a implicação do adulto? Será que todos os pedidos da criança são atendidos? Será ela a rainha do pedaço? Quem decide na família? 

Frente à solicitação de uma criança por um irmãozinho, é importante tentar entender o que pode estar por trás do pedido. Escolho, à título de ilustração, algumas possibilidades corriqueiras:

Todo mundo tem e eu não! Bom, a vida é assim mesmo. Não temos tudo que todos têm. E temos muitas coisas que outros não têm. Se de um lado isso é angustiante, de outro é o que permite as trocas afetivas. Frustrações e limites nos fazem “virar gente”.

Quero alguém para brincar! Ótimo! Criança tem que querer brincar. Criança precisa de outras crianças para brincar. As creches e escolas atendem muito bem a esta necessidade humana de estar com pares. Parques, praças, clubes e centros de convivência também são espaços para encontros na infância. Receber crianças em casa também cumpre esta função.

Mãe, pai, gruda no pé de outro! Mãe e pai em excesso costuma sufocar; a ideia de um novo irmão pode ser um pedido por oxigenação!

Outro ponto que merece atenção quando irmãozinho torna-se “presente” são os aspectos inconscientes que tecem a narrativa familiar. Um bebê ingressa em uma família não apenas pela via das expectativas conscientes, mas também a partir de um lugar fantasiado (portanto, inconsciente) pelos pais . Por exemplo, pode ser que na fantasia parental ele tenha que ser um mini me, isto é, uma “cópia” dos pais (ou de um deles), com pouca possibilidade de ir se descobrindo e construindo sua individualidade. Se os pais têm história de cuidados primordiais precários, pode ser que o filho tenha que se ocupar, desde muito pequenino, da tarefa de cuidar desses pais, de tal modo que ele opte por “ficar sempre com os pais”, pois “deixá-los” equivaleria a “abandoná-los”. 

O lugar fraterno também é designado  pela família. E aqui, lugar não é o de mais velho, do meio, do mais novo, nem do mais esperto, inteligente ou queridinho da vovó. Lugar fantasiado refere-se àquilo que de alguma forma atende aos mais profundos anseios e desejos parentais, como muitas vezes acontece quando pais esperam uma relação fraterna perfeita, sem desavenças, revelando, quem sabe, pais igualmente perfeitos, que não erram nunca (nesses casos, basta os pais falharem para que pequenos desentendimentos do dia a dia possam aparecer).

A criança que ganha um irmãozinho (ou irmãzinha, já temperando ou reafirmando a trama familiar no que concerne ao desejo pelo sexo da criança) sempre fará confabulações, silenciosas ou não, sobre o bebê, o lugar do bebê e seu próprio lugar na família. Ela pode imaginar fazer o que quiser com o irmão. Pode achar que será a responsável por ele (especialmente se ele for um “presente”). Pode se ver como um “fazedor” de irmãozinho, ao se ver como par de quem o “presenteou”, e tantas outras possibilidades.

Do lado dos pais, dar um irmãozinho a um filho é dar-lhe algo. Para cada família esse “algo” terá sempre um significado singular. Porém, alguns aspectos são frequentemente observados nas dinâmicas familiares em que predomina a lógica de “irmão como presente”: irmãozinho como aquele irmão que não se teve na infância (representando o que faltou), irmãozinho como complemento àquilo que os pais não conseguem oferecer, irmãozinho no lugar de um desejo que não pode ser assumido, e por aí vai. O que é preciso evitar – e às vezes isso só é possível mediante um trabalho que acesse as fantasias inconscientes, como é o caso da psicoterapia – é que a criança enganche na fantasia e questões do adulto ou que a criança “resolva” a ambivalência dos pais no que se refere a ter mais um filho. Ter mais um filho, não importa se segundo, terceiro, quarto, é uma decisão que só cabe à mãe e ao pai. Eles precisam querer mais um filho e isentar a criança desta decisão. Depois disso, irmãozinho é consequência, com toda a ambiguidade que ter um irmão traz à criança, como bem ilustra a canção da Palavra Cantada:

Imagem: Google.