Inúmeros são os benefícios da amamentação para a saúde do bebê e da mãe. Por este motivo, o leite materno é considerado pela Organização Mundial da Saúde o melhor alimento para os recém-nascidos e crianças com até dois anos, sendo recomendado como alimento exclusivo e em livre demanda (livre frequência e duração das mamadas) até os seis meses.

Nos primórdios da vida, a livre demanda é fundamental para estabelecer os ritmos do bebê e atender às necessidades dele. Gradualmente, na medida em que o filhote humano experimenta a segurança e a satisfação no encontro entre a necessidade (de ser alimentado, trocado, aquecido, etc.) e o prazer que isso proporciona, ele passa a demandar a mesma experiência. Experiência essa que o permite “alucinar” a presença (do cuidador ou do cuidado), sem precisar obtê-la (imediatamente). É nesse intervalo que o bebê pode estar livre para demandar e, posteriormente, experimentar para além do corpo materno.

De alimento que melhor supre as necessidades nutricionais do bebê e pequenas crianças a fluido do amor, muitas têm sido as campanhas de incentivo, promoção e apoio à amamentação desde a invenção da fórmula. Pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde entre fevereiro de 2019 e março de 2020 revela o aumento da prevalência do aleitamento materno exclusivo. Em comparação à pesquisa realizada em 2016, houve aumento de 15 vezes no aleitamento exclusivo entre bebês menores de 4 meses e de 8,6 vezes entre os menores de 6 meses. E em comparação aos últimos 34 anos, o índice de amamentação exclusiva em bebês menores de 4 meses aumentou em quase 13 vezes e em menores de 6 meses em cerca de 16 vezes.

Se de um lado tais campanhas foram e continuam sendo essenciais para viabilizar a amamentação, de outro temos que considerar seu efeito reverso quando tomadas pelo imperativo “tem que amamentar”.

A amamentação em livre demanda exige da mãe disponibilidade física e psíquica para o encontro com o bebê na oferta de seu seio sempre que ele requisitar. Ainda que a mãe opte por amamentar e a experiência seja prazerosa, há situações em que a amamentação se torna penosa, provocando um grande mal-estar na lactante. A mãe passa a amamentar chorando, com raiva, irritada por não querer, mas ter que, amamentar porque o bebê/criança precisa ou solicita. Este fenômeno, conhecido por perturbação da amamentação, se dá especialmente quando a mãe amamenta uma pequena criança enquanto gesta outra ou amamenta filhos de idades diferentes, e costuma ser interrompido com o desmame.

Será preciso chegar a extremos – da dor – para que certas convicções possam ser revistas? Por que falamos, agora, em “perturbação da amamentação”? Cabe, aqui, o parêntese: o desconforto em relação à amamentação não se dá apenas em situações nas quais ela foi gratificante. Há mulheres que nunca sentiram deleite na amamentação, mas a levam a cabo, muitas vezes sustentadas pela ideia de que amamentar é pré-condição para criar vínculo com o bebê. A amamentação favorece a criação do vínculo, desde que não seja uma experiência desagradável.

Sustento minhas hipóteses pelo que a clínica apresenta. Nossa cultura é regida por imperativos que desconsideram a subjetividade e a singularidade. O coro à amamentação como atributo da mamífera, portadora da condição biológica de nutriz, desconsidera (ou considera muito pouco) que a mamífera humana e seus descendentes têm um psiquismo. Tramas e fantasias inconscientes se apresentam na amamentação, no início, meio ou término do processo.

Para além dos imperativos, não podemos ignorar outros aspectos culturais que têm refletido no exercício da parentalidade e, consequentemente, na amamentação, mais precisamente na livre demanda estendida: o binarismo, o imediatismo e a ininterrupção.

O binarismo abole o meio termo, definindo padrões nos extremos. Na maternidade, a mãe “normal” ou a “mãe de merda” (expressões entre aspas, ótimas, de um dos quadros da primeira temporada do Podcast Calcinha Larga, com Tati Bernardi, Camila Fremder e Helen Ramos). A que amamenta e cria vínculo, oferece amor, nutrientes, etc. versus a que dá fórmula, sabe-se lá por qual motivo – e também cria vínculo, oferece amor, nutrientes, etc., mas parece que não, pois escapa ao imaginário social da boa (e mamífera) mãe. A lista de extremos e comparações é infinita, inclusive em relação à amamentação.

O imediatismo e a ininterrupção caminham de mãos dadas. São fruto da cultura da virtualidade, que, queira ou não, impregna nosso modo de estar e ser no mundo. Traduzem nossa dificuldade em colocar limites, vivenciar a espera, a falta. Tudo tem que ser para já e não pode terminar. Isso não é sem consequência para a saúde mental.

Tendo como pano de fundo a cultura da virtualidade, parece não ser possível dissociar o sentido singular de cada “perturbação” dos possíveis efeitos da virtualidade sobre a parentalidade e a constituição psíquica. Mães almejam oferecer “tudo” aos filhos, tentam dar conta de “tudo”, o tempo todo. Estão sobrecarregadas, adoecendo devido à cobrança interna e social de ser absoluta. Do ponto de vista da constituição psíquica, se oferecemos “tudo” ao bebê e à pequena criança, como fica a experiência de antecipação do seio, que os permite imaginar o seio, se ele aparece imediatamente? Como fica a alternância presença-ausência se o seio está sempre ali, disponível? Como fica a entrada de um terceiro, que forneça opções para além da dupla mãe-bebê? A livre demanda, principalmente a estendida, pode estar no lugar deste “tudo” quando outros gestos ou palavras são substituídos (prontamente) pelo seio. De estendida, vira extensão da mãe com o bebê, do bebê com a mãe. Um exemplo recorrente que observo em grupos com famílias e bebês/pequenas crianças é a criança se dirigir a um objeto e a mãe a chamar para o seio; ou o inverso, a criança, ainda que demonstre interesse pelo grupo, recolhe-se no seio materno.

Diante da “perturbação da amamentação” há de se perguntar o que perturba a relação mãe-bebê. Dito de outra forma: o que a “perturbação” denuncia? Como nem sempre a denúncia é explícita, é necessário investigar as tramas e fantasias inconscientes que atravessam a relação com o bebê sem apenas interromper o incômodo com o desmame. A clínica nos ensina: um sintoma pode se deslocar. Aí, a “perturbação”, mais cedo ou mais tarde, vai fazer barulho em outro lugar.