A partir da ideia de variações do jogo do rabisco apresentada no texto Winnicott e alguns aspectos técnicos da psicoterapia online, ilustro com material clínico como isso se deu no atendimento online de uma criança, aqui denominada C, prestes a completar 6 anos.

O jogo do rabisco foi criado pelo pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott para uso em contextos terapêuticos. Simples de jogar, exige apenas papel, lápis e a instrução para que o paciente desenhe livremente a partir do rabisco iniciado pelo terapeuta. Depois, é o paciente quem faz a garatuja para que o terapeuta siga com o desenho. Nessa alternância abre-se espaço para a criação conjunta de algo novo, resultante da interação entre inconscientes.

O jogo não tem o objetivo de produzir formas ou desenhos estruturados, tal como ocorre nas técnicas que utilizam o desenho como expressão projetiva. Sua forma inacabada, como a de um self em processo de amadurecimento, permite com que conteúdos e emoções possam se manifestar com menor resistência, favorecendo ao terapeuta entrar em contato com a criança e à criança consigo mesma, de tal modo que material mais profundo possa aparecer.

Como jogo, o que vale é a experiência, o brincar, a possibilidade de colocar em movimento questões fundamentais que ficaram estacionadas no processo de amadurecimento, e não seu caráter expressivo. Por isso, ainda que haja associações durante o jogo, elas não interpretadas pelo terapeuta, tal como costuma ocorrer diante de outras produções gráficas do paciente.

Na sessão presencial que antecedeu o atendimento online decorrente da quarentena pela pandemia de Covid-19, C brinca com palavras que conhece em inglês e me pergunta se sei alguma em francês. Brincamos com cumprimentos em diferentes idiomas, entre eles o japonês, que lhe parece o mais divertido.

A transição do atendimento presencial para o online aconteceu meio de supetão, o que não foi sem consequência para a criança. Na primeira sessão online, recebo mensagem de texto da mãe informando que C não queria fazer a sessão. Sugiro que iniciemos a sessão, por vídeo e na presença da criança, a qual se esconde diante da câmera, mas também “me espia”, na ambivalência de querer a sessão, mas não daquela forma; na dúvida se podia ou não contar com alguém que mudara a regra do jogo e que entrava em sua casa sem pedir licença.

Conforme pudemos conversar sobre o novo contexto, sobretudo que a mãe não precisaria estar com ela durante as sessões – ter o próprio espaço era uma conquista importante – C vai se aproximando da câmera, de mim, permitindo a saída da mãe. Retoma do ponto em que paramos na sessão anterior – brincando com palavras em outro idioma – como se essa continuidade mantivesse certa ordem. Porém, era impossível seguir do mesmo jeito. Muita coisa havia mudado. A escola estava suspensa. A mãe estava em casa o dia todo. A babá, com quem passava parte do dia, estava afastada. O pai, que morava em outra casa, ainda não sabia como faria para estar com a filha. Em meio à brincadeira, C mostra algumas canetinhas. Logo criamos um jogo em que ora uma, ora a outra, soletrava uma palavra e cada uma de nós a registrava em uma folha de papel.

A brincadeira de soletrar e adivinhar as palavras escritas seguiu por cinco sessões consecutivas. Ao término do jogo da segunda sessão, propus a criação de uma história a partir daquelas palavras. Havia um enredo, sem dúvida alguma. A história foi por mim gravada e enviada à criança através da mãe, minha via de acesso a ela fora das sessões. C escutou uma pequena parte, mostrando que o que importa é a experiência do jogo (tal qual coloca Winnicott), não a narrativa interpretativa apresentada na forma de texto (a isso soma-se seu pedido de manutenção de um espaço privado, borrado pelo isolamento social, e atuado por mim ao enviar através da mãe o material produzido, num momento que eu também estava me ajustando a essa nova configuração).

Registro aqui os jogos das duas primeiras sessões. Após a produção textual, compreendi o jogo como uma variação do jogo do rabisco, uma vez que servia como oferta de um espaço de confiança e criação, e não um material a ser interpretado, ainda que contivesse elementos associativos importantes, da criança e meus.

Em azul, palavras escritas por C; em vermelho, por mim.

Primeira sessão:

Segunda sessão:

Nessas duas sessões o jogo durou quase todo o tempo de nosso encontro. Nas três seguintes, foram o “aperitivo” das sessões. Cada palavra escolhida não era aleatória. Eram buscadas em suas coisas (mesmo não sabendo ler), repertórios, história. Traziam conteúdo, emoções. Falavam de si.

Embora muitas palavras fossem estruturadas, especialmente as minhas, elas não estavam ali com a intenção de formar um texto. Embora eu tenha construindo um ao final da segunda sessão, a narrativa foi apresentada a posteriori do jogo, não suprimindo seu caráter desarmado e espontâneo.

O jogo, permeado por muita risada derivada dos estranhos sons das palavras inventadas (ou da angústia até então não nomeada), serviu para reestabelecer a confiança abalada com a mudança de enquadre, dando espaço para o contato íntimo e possibilitando que o material psíquico da criança pudesse ser trazido por ela nas sessões subsequentes através de novas brincadeiras (muitas delas envolvendo “matar” com a canetinha) e fala. Afinal, o rabisco antecede a escrita, tal como a palavra antecede o texto de si mesma.