Recortes de leituras e lives que mobilizaram reflexões.

Se é verdade que há solidão na experiência de gestar e parir um bebê, com o que concordo, não vejo porque ela seria incompatível com a ideia de “casal grávido”.

Situemos a discussão. É comum hoje em dia que casais à espera de um bebê se autodenominem grávidos, como se ambos os sujeitos do casal estivessem gestando. Expressão que pode causar tanto estranhamento, como comoção ou reflexão.

Mas como casal grávido se só uma pessoa gesta no próprio corpo? E a “solidão e responsabilidade vivida pelo corpo que vai gerar o bebê”? Tomei esta frase do livro de Marcela Tiboni, Mama, um relato de maternidade homoafetiva (Editora Dita Livros) – recomendo a leitura! Ela narra como foi se dando conta, no processo de fertilização, do tanto de experiências que sua mulher viveria no próprio corpo e sobre as quais ela não sabia nada. Assim como sua esposa não poderia saber de sua solidão na sala de espera, aguardando os procedimentos. Muito interessante como a autora evoca justamente a conexão com a maternidade e com sua própria família em constituição nesses momentos em que cada uma das mulheres do casal estava entregue a uma experiência solitária de corpo.

Na mesma direção, em uma live deliciosa de Ana Suy com Letícia Bassit, a psicanalista fala também sobre essa solidão marcada pelo fato de que “só você está dentro do seu corpo”. E evoca a ideia, bastante difundida por aí, de que a mãe nasceria no momento do resultado positivo do teste de gravidez enquanto o pai viria depois do parto.

Duas ou três observações quanto a isso. Talvez o corpo que gesta seja o do pai, como ocorre no caso de homens transexuais gestantes. Neste caso, o pai é que nasceria no positivo? E a mãe viria depois? Ou será que não se trata apenas de viver o processo orgânico da gestação para se constituir como mães ou pais de alguém?

Bebês são gerados em um corpo, mas são também gestados no psiquismo. “Nascer” como pai ou mãe é um processo que se dá não só pelo evento biológico da gestação ou do parto; embora a passagem do tempo, o crescimento da barriga, a materialização de um corpo crescendo no útero possam favorecer a construção de um vínculo de parentalidade, ele não está garantido e nem depende desse processo. As adoções estão aí escancarando o fato há tempos. Pessoas que não gestaram se tornam mães e pais, enquanto pessoas que gestaram um bebê não necessariamente, como nos casos em que o bebê é entregue para adoção, por exemplo. É por isso que dizemos que todos os filhos são adotados, no sentido de que até os filhos biológicos precisam de mães/pais que se assumam nesse lugar de cuidar deles e cria-los.

Por outro lado, a experiência da perinatalidade (ou seja, do processo de conceber, gestar, parir, amamentar) é imensa e não se passa incólume por ela. O fato de o pós-parto aumentar significativamente os riscos de desenvolvimento de transtornos mentais conta um pouco dessa história. Dores, profundas transformações corporais, alterações hormonais, rupturas do corpo e o intenso trabalho psíquico que acompanha esses processos, remetem a inelutável solidão de existir.

Então, se da solidão – do latim solus, só, único – não podemos nos livrar, talvez possamos evitar a ela acrescentar a dor do desamparo social. Como aquele vivido pelas mulheres – com ou sem companheiro(a) – quando instadas a cuidar sozinhas de sua gestação, parto e filhos, sobre o qual falaram Letícia e Ana na live Eu, mãe solo?.Ou o desamparo do desrespeito à sua existência, vivido por pessoas trans e reificado no desconhecimento técnico-científico sobre seus processos de reprodução e parentalidade, como lindamente contado por Amanda, Apollo, Theo e Yuna, na live Gestação masculina e parentalidade trans.

Se não for para apagar a complexidade e encobrir o indizível da experiência perinatal, mas para inventar formas mais solidárias – do latim solidus, sólido, solo, fundamento – de exercício da parentalidade (convocando, pais, companheiros ou companheiras a se implicarem desde cedo no processo), que seja muito bem vinda a expressão casal grávido. Quiçá um dia inventemos a família grávida, amigos grávidos, comunidade grávida.

 

Imagem: Boris Gonzalez, por Pixabay.

 

Texto escrito por Tatiana Machado.

A Tatiana é psicóloga (USP-Ribeirão Preto) e mestre com pesquisa realizada na área de psicologia e sociedade (Unesp). Tem treinamento em psicoterapia breve de orientação psicanalítica e pronto atendimento psicológico (Unicamp) e pós-graduação em psicanálise na perinatalidade e parentalidade (Instituto Gerar).  É colaboradora do Grupo Transformação de apoio às perdas gestacionais e neonatais. Em sua clínica na cidade de Araraquara/SP, além de atendimentos individuais, desenvolve atividades para mães e famílias às voltas com bebês, da concepção ao pós-parto.