Numa rápida busca pelo significado da palavra rede, encontro no Google a definição do Dicionário Oxford: “entrelaçado de fios, de espessura e materiais diversos, formando um tecido de malhas com espaçamentos regulares”. Parto dela para pensar sobre a tão fundamental rede de apoio no puerpério.

Primeiro, os fios. Fios unem, juntam, ligam. Podem ser transformados em belíssimos trabalhos. Reparar desgastes. Permitir gambiarras que nos salvam de perrengues cotidianos. Fios enlaçam. Ou fazem nós; às vezes, (quase) impossíveis de serem desatados.

Se em nossa caixa de fios há tipos diferentes deles, fica mais fácil, no momento em que precisamos de um, escolher aquele que melhor nos serve. O uso adequado do fio, inclusive, evita nós.

Uma rede de suporte é formada por fios, diversos, cada um com sua característica, função. Fios que, quando à mão, vão desde quebrar galho até viabilizar a construção de algo perene. As mantinhas de lã, que passam de geração em geração, são um exemplo, tal qual a transmissão, também geracional, da dedicação – artesanal, minuciosa – aos cuidados do bebê.

Todos nós, que fomos bebês um dia, carregamos conosco a experiência de como fomos cuidados. É partir da experiência de identificação com o bebê que fomos, que cuidamos dos nossos bebês. Além dessas marcas primitivas, os cuidados com o bebê também são permeados pelas expectativas e fantasias inconscientes do cuidador em relação ao bebê, pelas vivências na gestação, parto e pós-parto, pelos enredos e contextos de cada família e época, e pela responsividade do bebê em relação aos cuidados recebidos. Portanto, os cuidados com o bebê, especialmente nas primeiras semanas de seu nascimento, é um momento de intensa revisitação ao próprio cuidado, o que coloca a puérpera diante do paradoxo de cuidar e precisar ser cuidada. É aqui que entra a rede de apoio.

Rede de apoio não é sinônimo de ajuda, embora a ajuda esteja contida nela. Costumo pensar ajuda como aquilo que é mais “braçal”. Na ajuda, quem faz e como faz, conta muito pouco. O que interessa é que as necessidades materiais da puérpera possam ser atendidas. Por isso, é possível delegar, terceirizar a ajuda. A puérpera precisa se alimentar, estar em um ambiente limpo, com roupas lavadas, etc. Se a comida é retirada do freezer, se chega por delivery ou através da marmita deixada por uma amiga, o que importa é tê-la, com qualidade, a cada refeição. Isso se estende às demais necessidades materiais. Porém, a depender de como essas necessidades são atendidas, a ajuda é também um cuidado.

Um cuidado nunca é anônimo; se o for, não é cuidado, é higienização, utilização de técnica, manutenção da vida, imposição ou qualquer coisa nesse sentido. E por não ser anônimo, no cuidado há sempre um “a mais”, que faz toda a diferença. Há um olhar que reconhece a necessidade do outro, uma voz que, de algum jeito diz: “estou aqui, você não está sozinha”. Essa disponibilidade, característica do cuidado, não apenas é o que permite acolher o desamparo materno, minimizando a angústia, como também é o que valida o saber materno. Recordo-me do episódio narrado por uma puérpera que, em seu “desespero” (palavra dela) por não se sentir capaz dar banho em seu bebê a partir da técnica ensinada na maternidade, ouviu de um dos fios de sua rede: “banho dá de qualquer jeito”. Sua angústia fora captada, acolhida e transformada, tornando possível a essa mãe dar banho do seu jeito. E, sem dúvida, favorecendo o enlaçamento mãe-bebê.

Agora, o tecido, com espaçamentos regulares. Frisemos: com espaço e regularidade, o que se traduz por um continuum presença-ausência. Tecido protege, enfeita, desde que, pelo menos no dia a dia, respeite a justa medida, sem falta ou excesso; apenas o suficiente. Enquanto a proteção caminha ao lado da segurança e confiança, o enfeite assinala o investimento amoroso necessário para nos fazer sujeitos desejantes; vivos!

Na clínica da perinatalidade, com frequência, escutamos: “minha mãe veio me ajudar, mas tem horas que ela mais atrapalha do que ajuda, mesmo fazendo um monte de coisas”. Ou, “ele não ajuda”. Falas emblemáticas que, embora tenham sua marca singular, nos auxiliam a pensar na ideia de “espaçamentos regulares”, na experiência de continuidade proporcionada pela alternância presença-ausência. Na primeira fala, em geral, há uma presença excessiva, um fazer no lugar da puérpera e não pela puérpera – que seria cuidado (relato também muito comum entre mães que contratam as chamadas “enfermeiras”). Na segunda, ausência (quando quem não ajuda é o par conjugal, a “falta de ajuda” pode estar ocultando algum grau de sofrimento por uma vivência também primitiva de desamparo, atualizada na medida em que a mulher se recolhe em sua dedicação ao bebê).

Não se faz um tecido de malha – um bebê, uma mãe – sem espaçamentos regulares, sem o espaçamento presença-ausência. Quer seja, sem a disponibilidade da mãe para seu bebê, sem a disponibilidade de uma rede para as necessidades materiais e emocionais da mãe. Daí a urgência em cuidar das mães para que elas possam cuidar de seus bebês.