Em 2016 a Organização Mundial da Saúde lançou o manual Recomendações da OMS sobre cuidados pré-natais para uma experiência positiva na gravidez com o objetivo de reduzir a morbidade e mortalidade evitáveis relacionadas com a gravidez. Nele, a OMS destaca que os cuidados pré-natais devem incluir “a promoção da saúde, o rastreio, o diagnóstico e a prevenção das doenças” (p.01) através de intervenções nutricionais, avaliação materna e fetal, medidas preventivas, intervenções para sintomas fisiológicos comuns e intervenções nos sistemas de saúde para melhorar a utilização e a qualidade dos cuidados deste período da vida da mãe e do bebê.

Embora a OMS sublinhe “a importância de estabelecer uma comunicação efetiva com as mulheres grávidas acerca de questões fisiológicas, biomédicas, comportamentais e socioculturais, e de um apoio respeitoso e efetivo, incluindo seus aspectos sociais, culturais, emocionais e psicológicos” (p.01), as recomendações voltam-se prioritariamente para a saúde física da dupla mãe-bebê.

A saúde física da mãe e do bebê também é preconizada no Cartão da Gestante elaborado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Ainda que haja um campo destinado à participação da gestante em atividades educativas, estas, em geral focam na preparação para o parto e nos cuidados com o recém-nascido. Ou seja, priorizam, mais uma vez, o orgânico. Ações educativas e preventivas também são recomendadas pelo Ministério da Saúde, assim como a inclusão do parceiro no pré-natal e a avaliação de aspectos psicossociais a ser realizada pelos profissionais da Atenção Primária à Saúde. 

Ao mesmo tempo em que as entidades especializadas em saúde citam em suas diretrizes a necessidade de cuidados em relação à saúde mental na gestação, a saúde mental na perinatalidade aparece predominantemente associada aos transtornos mentais, como a depressão. Exemplo deste recorte é o dado da OMS de que 10% das gestantes em todo o mundo sofrem de algum transtorno mental, ou, em período posterior ao nascimento, de que 25% das mulheres e 10% dos homens sofrem de depressão pós-parto (taxa que sobe para 50% quando a companheira também sofre do transtorno).

Não há dúvida de que qualquer transtorno mental no ciclo gravídico-puerperal impacta diretamente a vida de quem dele sofre, bem como a vida do bebê, o que torna seu diagnóstico e tratamento imprescindíveis. No entanto, não podemos restringir os cuidados em saúde mental apenas ao que gira em torno das patologias, nem as questões emocionais da gestação apenas à gestante.

A experiência emocional da gestação, do parto e do puerpério não é exclusividade da mulher. O trabalho psíquico para receber o bebê em uma família é de todos os seus membros. Filha precisa transformar-se em mãe, filho em pai; filho único precisa tornar-se filho mais velho e irmão, segundo filho, filho do meio, e assim por diante. Quando há um casal parental, seu vínculo passa a ser perene. Estas transformações não são exclusivamente de ordem social, nem as adaptações necessárias são somente ambientais (como, por exemplo o planejamento financeiro, o preparo do quarto e do enxoval do bebê, a decisão pela rede de ajuda, entre outras). A chegada do bebê, desde a gravidez, e em alguns casos desde antes da concepção, implica em rearranjos internos que são vivenciados com mais ou menos intensidade, dificuldade e até mesmo sofrimento, de acordo com a história de cada um. Na maioria das vezes, esses rearranjos não têm nada de patológico, mas são resultados da diminuição das defesas psíquicas e, portanto, da atualização de conteúdos arcaicos – os mesmos que possibilitam mãe e pai se identificar e, consequentemente, cuidar de seu bebê

A construção da parentalidade e o desenvolvimento da subjetividade do bebê são favorecidos quando os pais têm a possibilidade de simbolizar a experiência da maternidade/paternidade desde o início da gestação. Para isso é essencial que os sentimentos, fantasias, medos, inseguranças e angústias que (re)surgem com a gestação possam ser acolhidos e (re)significados em um espaço livre de julgamento e previsões, tais quais as fornecidas pelos tantos manuais sobre gravidez e criação de filhos.

O pré-natal psicológico oferecido pela Ninguém Cresce Sozinho e parceiros tem por objetivo acolher as vivências emocionais da gestação, proporcionando a mulheres e homens gestantes o reconhecimento e o desenvolvimento de recursos próprios para lidar com as mudanças decorrentes da nova configuração familiar e as incertezas que chegam junto com o bebê. Através de encontros grupais e com número limitado de participantes, o pré-natal psicológico ocorre presencialmente ou online, possibilitando com que gestantes em diferentes contextos e localizações geográficas possam participar e, semana a semana, ir abrindo espaço psíquico para a mãe ou pai que cresce junto com a barriga.

 

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Imagem: Google.