O trabalho da intervenção precoce fundamenta-se pela possibilidade de oferecer um testemunho para a construção do laço afetivo entre mãe e bebê, isto é, uma possibilidade de escutar e oferecer meios para que a dupla possa se ajustar, no processo da construção da mulher de tornar-se mãe e do bebê de tornar-se filho e sujeito.

A travessia em torno da construção da parentalidade não começa apenas no momento da chegada do bebê; constitui-se desde o momento das fantasias mais remotas do desejo da maternidade, representada pelas brincadeiras infantis, seguida da gestação e, finalmente, pelo momento tão esperado do nascimento do bebê.

Mas, afinal de contas, será que uma mãe nasce imediatamente com seu bebê ou esse estatuto requer um processo e uma construção? Essas questões parecem nortear a fantasia idealizada da maternidade, ou seja, da maternagem como um produto comprado e vendido pelo mundo midiático como um “mar-de-rosas”, pois na sociedade burguesa contemporânea, compreende-se que o instinto materno deve ser algo inerente à toda mulher. No entanto, quando o bebê nasce, da mesma maneira que a mãe se depara com o não saber, o bebê também se apresenta como diferente daquele idealizado. A sua “potencialidade de ser” atrelado à sua voracidade pela vida, pode, muitas vezes, ser vivida e experimentada como uma demanda que vai além da capacidade que a mãe acredita dispor para seu bebê. Nesse sentido, frequentemente, assistimos nesses momentos iniciais desencontros marcados por impasses dos espaços deixados entre o ideal e o real, das dissonâncias do que se sonhou e do que se tem. Dizemos, portanto, que este é um momento de ajustes, de busca incessante de encontros, apesar de tantos desencontros!

Felizmente, quando tudo vai bem, mãe e bebê conseguem ir se ajustando, por meio de trocas marcadas por um interjogo ritmado de surpresas e prazeres, até que, finalmente, ambos passam a orquestrar uma única melodia! Nessas trocas interativas, harmoniosamente estabelecidas entre a dupla, observa-se que há um grande trabalho psíquico do bebê, que vai gradativamente se constituindo como sujeito e que será determinante para que mais tarde ele seja capaz de criar e desejar.

E quando há uma impossibilidade desses ajustes entre mãe e bebê? Sabe-se que, por inúmeras razões, tanto oriundas do próprio infans (como é o caso daqueles bebês que desde cedo se mostram pouco disponíveis para o contato com o outro) quanto pelo lado materno (quando a mãe se sente desamparada e potencialmente incapaz de exercer sua árdua tarefa de oferecer os recursos necessários para o bom desenvolvimento global de seu filho), que o campo da psicoterapia mãe-bebê atua como necessário e eficaz.

Na contramão do discurso das receitas da parentalidade prét-à-porter, rotuladas e prontas para serem vendidas, busca-se na intervenção precoce um espaço de escuta do diálogo entre a mãe e o bebê, a fim de ampliar as possibilidades da mãe ouvir e traduzir o que seu bebê lhe conta sobre sua adaptação ao mundo, ao mesmo tempo em que ela mesma possa sentir-se livre para poder escutar-se e elaborar o encontro com seu filho, marcado por trocas únicas e pela singularidade de cada um. Sim, a cada relação uma nova mãe deve ser construída, tal como diz a fala popular: “para dois filhos existem duas mães”!

Dizemos que o trabalho psicoterápico com mães e bebês pretende oferecer um espaço de acolhimento para que o processo da parentalidade se dê a partir da individualidade e da história singular de cada mulher, o que implica em revisitar a maneira como ela mesma foi um dia cuidada. Trata-se da transmissão da maternidade atravessada pelos códigos culturais e transgeracionais. Finalmente, podemos concluir que a proposta da intervenção precoce é a de favorecer um espaço de escuta, de acompanhamento, a fim de que uma nova história seja (re)escrita, (re)criada, entre mãe e bebê e que um verdadeiro encontro seja possível.

 

Imagem: Google.

 

Texto escrito por Camila Saboia e Paloma Vega.

A Camila é psicóloga (PUC-SP), psicanalista, mestre e doutora em Psicopatologia e Psicanálise (Université Paris VII-Denis Diderot) e pós-doutora (IPUSP) no campo da intervenção precoce. Atua como professora convidada no IPUSP no curso sobre intervenções com bebês e é autora de diversos artigos sobre o tema.

A Paloma é psicóloga (PUC-SP), especialista em Psicologia Hospitalar (Instituto Emílio Ribas) e em Psicoterapia Psicanalítica (USP). Capacitada em Responsabilidade Social e Terceiro Setor  (FIA) e em Relações Pais-Bebês (Instituto Sedes Sapientiae).