Eu não estou sabendo lidar com isso”. Ouço essa frase com frequência de mães enlutadas pela perda de seus bebês. A cada vez que ela se reapresenta, apuro os ouvidos para escutar o que cada uma dessas mulheres comunica, pois que é sempre algo único, singular, mesmo que as palavras se assemelhem.

É assim o trabalho na clínica psicológica, uma a uma, um a um.

Fora do espaço clínico onde se faz essa escuta singular, a repetição, não apenas das palavras, mas do contexto em que emergem, chama a atenção: essas mulheres parecem cobrar de si mesmas um desempenho melhor na elaboração de seu luto. Gostariam de ser mais fortes ou são surpreendidas por uma dor que, mesmo com a passagem do tempo, não cessa de retornar. Perguntam-se se haveria uma maneira, que elas ainda não conheceriam, de lidar melhor com essa perda.

Talvez algo dessa frase, simples e ao mesmo tempo enigmática, diga da impossibilidade mesmo de digerir por completo esse “isso” tão difícil de nomear, tão contrário às expectativas mais banais sobre a vida: de que filhos sobrevivem aos pais e não contrário, de que a gestação é o tempo do começo da vida e não de seu fim. Diante de uma realidade tão brutal, o que significaria afinal saber lidar com “isso”?

Significa não se entristecer, não chorar, não se desesperar? Significa viver essas emoções, mas recuperar-se logo, voltar rapidamente às atividades de trabalho? Ou então, ao começar a se sentir melhor, não andar para trás, não se desesperar novamente?

É preciso reiterar, uma vez mais, que há um descompasso imenso entre o que vive a família enlutada por uma perda perinatal (gestacional ou neonatal) e a expectativa de seu entorno. A família perde um bebê, uma filha ou filho, independentemente da idade gestacional. Não se trata da quantidade de semanas ou do grau de desenvolvimento do embrião, mas do quanto cada mãe ou pai pode ver naquela sementinha o seu bebê já pronto. Enquanto os pais vislumbram aquele bebê na universidade, para os que não vivem o cotidiano da gravidez, trata-se “apenas” de uma gestação, um embrião ou um bebê anônimo, portanto – supõem os bem intencionados – facilmente substituível por uma nova gestação.

No bojo desse descompasso entre o que a mãe sente e o que esperam que ela (não) sinta, surgem, talvez, os primeiros questionamentos de sua capacidade de lidar com a perda. Se seu entorno não reconhece a legitimidade de sua dor, como ela poderá fazê-lo? Com sorte, essa mulher encontrará apoio em outras mulheres que passaram por perdas ou terá a oportunidade de frequentar um grupo de apoio, e descobrirá que se entristecer não apenas é permitido como é parte inevitável do trabalho de luto que elas têm pela frente.

Mas o sentimento de não estar sabendo lidar com a perda insiste, tanto quanto persistem a dor e os apelos de familiares, amigos, conhecidos, desconhecidos! ou mesmo profissionais da saúde para que essa mulher se restabeleça logo. Como se certo tempo de luto fosse tolerado, desde que uma recuperação efetiva e definitiva não tarde a chegar.

Ocorre que não há solução definitiva para o luto. Não há tampouco uma recuperação em linha reta. Freud, o pai da psicanálise, chamava este processo de trabalho de luto, porque há de fato um imenso e intenso trabalho psíquico a ser feito no decorrer desse tempo comumente proclamado como o solucionador das dores.

Não basta o tempo passar, há muito trabalho a ser feito. E sobre esse trabalho não há saber a priori, não há conhecimento que dê conta de explicar a essa mulher ou a essa família que caminhos ela deve percorrer. O percurso de elaboração da perda é também singular, cada uma saberá sobre o seu à medida que o percorrer. Grupos de apoio e aconchego familiar são suporte fundamental para ampará-la nessa travessia e, em alguns casos, quando essa dor se enrosca em outras dores da vida, uma escuta profissional se faz necessária.

Se não há saber a priori e universal, aprende-se mesmo na lida. Interessante descobrir, em meio a estas reflexões, que lidar vem do latim litigare, que significa justamente batalhar, lutar, trabalhar. Este talvez seja um bom indicador de que o luto está sendo elaborado: quando há trabalho, quando há luta. Não no sentido de haver uma mulher forte e determinada a vencer uma batalha, longe disso, mas no sentido de haver movimento. Há movimento, quando há esforço de simbolização do que aconteceu, quando se tenta colocar em palavras a dor, mesmo que, em alguns momentos, só se possa calar e se fechar. O movimento não é um caminhar em sentido único rumo à superação da dor. Movimento implica em idas e vindas, melhoras e pioras, dias bons e outros terríveis. Movimento implica em, depois de um fechamento inicial, abertura progressiva para o mundo. Mas cada ida ao mundo promove a constatação de que ele não é mais o mesmo depois que o bebê se foi – e isso dói. Esse confronto, por vezes, provoca novo retraimento e fechamento, que exigirá depois, nova abertura. São todos exemplos de movimento que bem podem ser abarcados por essa noção genérica de saber lidar com a perda.

Se é verdade que o trabalho de luto exigirá muito da mulher é também verdade que dispor de uma rede de apoio com que possa contar ou ter de responder a cobranças por um bom desempenho na difícil tarefa de lidar com a perda fará toda a diferença!

 

Nota da autora: Este texto é dedicado a todas as mulheres e famílias que viveram uma perda perinatal e, em espacial, ao Grupo Transformação, grupo de apoio a famílias que passaram por perda gestacional ou neonatal, atuante na cidade de Araraquara-SP.

 

Imagem: Google.