Os primeiros meses de vida do bebê são marcados por intensa relação fusional com a mãe, que é quem lhe apresenta o mundo. O bebê vive como se ele e a mãe fossem um só. Ela, por sua vez, se identifica com o bebê, o que favorece a interpretação do que ele pode estar sentido e, por consequência, a oferta de respostas às demandas do novo serzinho. No brincar, a mãe empresta-se ao bebê, fazendo de seu corpo o melhor brinquedo para o filho.

A partir do terceiro mês o bebê começa a reconhecer partes de seu corpo como sendo suas e não como uma extensão materna. A presença humana continua sendo imprescindível, não apenas porque garante a segurança física e emocional para ele continuar suas explorações, mas principalmente pela relação afetiva estabelecida entre a dupla nos momentos do brincar.

Conquistas corporais que incrementam o brincar

Aos quatro meses, a maioria dos bebês já fixa o olhar, contemplando o que observa. Sua cabeça e olhos movem-se na mesma direção, e suas mãos se endereçam para o que ele quer, seja pessoas ou objetos.  Os movimentos de rolar são ensaiados com o balanceio das pernas sobre a barriga, permitindo-o em pouco tempo rolar nos dois sentidos. Como tudo é novidade, até o bebê pode se surpreender com suas novas conquistas. Se apoiado a continuar, ele nunca desistirá de seguir adiante com suas investigações, ainda que cada nova conquista demande muita energia e possa, em alguns momentos, deixar o bebê um pouco irritado.

As mãozinhas deixam de ser apenas observadas; elas são levadas para boca e o que em algumas semanas atrás era apenas um “agarrar acidental” torna-se um “apreender intencional”. Diante de um pêndulo o bebê pega o objeto em geral com as duas mãos. Por volta do quinto mês, ele toma posse do objeto com apenas uma das mãos, e do sexto, troca o objeto de uma mão para outra.

Não podemos esquecer que a boca do bebê também o diverte muito. O bebê curte não apenas os sons que ouve, mas também os que ele produz. Por volta dos quatro meses, alguns bebês produzem sons ainda sem significado como ma-ma, pa-pa, da-da. Aos seis meses, imitar é o grande barato, levando-o a tentar reproduzir qualquer som monossilábico. Nesta faixa etária, mostrar a língua e fazer bolinhas com a saliva não é falta de educação, mas uma grande descoberta daquilo que eles próprios podem fazer!

Entre o quarto e o sexto mês os bebês desenvolvem a capacidade de sentar. Inicialmente precisam de apoio, mas no final do primeiro semestre muitos já se sentam sem nenhum suporte nas costas, o que amplia as possibilidades de posição para a exploração do seu entorno.

Segurança

Rolando e levando objetos na boca, todo cuidado é pouco. Os bebês jamais devem ser deixados sozinhos em locais sem proteção, como camas, trocadores ou sofás, nem devem ter acesso a objetos com diâmetro inferior ao de um rolo de papel higiênico. E como tudo vai parar na boca, o ideal é que os objetos possam ser laváveis.

Os brinquedos, as brincadeiras e os espaços para brincar

Brincar é mais que entretenimento; é a forma como o bebê descobre a si mesmo e ao mundo. Seu corpo é o “brinquedo” que lhe dá mais autonomia. Por isso, não se deve impedi-lo de colocar dedos, mãos, punho e, posteriormente, os pezinhos na boca, nem de rolar por medo de asfixia. Quando o bebê é capaz de rolar, ele já sustenta a cabeça e arqueia as costas, impedindo que seu rosto se “cole” à superfície onde ele se encontra.

Para explorar seu próprio corpo e o que tem à sua volta, o chão torna-se um excelente lugar para o bebê brincar, sem riscos de queda e com a possibilidade de ele escolher a posição que lhe é mais confortável. Edredons ou tapetes de EVA cumprem com a função de deixar o espaço de brincar mais gostoso e seguro contra eventuais batidas do corpo no chão.

Os momentos de brincar não se limitam a um horário específico. No colo, no banho, no trocador, no carrinho, no berço ou no chão, o bebê deve ser convidado ao olhar, à fala, à escuta, ao toque, à imitação. Ele precisa que o adulto o convide a explorar seu meio com todos os sentidos. Isto é brincar e isto é o estímulo que ele precisa para se desenvolver de maneira integral e integrada.

Livrinhos de tecido ou plástico, pequenos potes, fitas de cetim, pedaços de pano, bichinhos ou bonecos macios, argolas, bolinhas, cubos, objeto espelhado, chocalhos e mordedores garantem a diversão, especialmente quando têm cores primárias, que são as que mais agradam os bebês desta faixa etária. Gavetas e armários da cozinha, caixa de aviamentos e cestas com recicláveis contém objetos tão ou mais interessantes do que os comprados prontos. Quanto mais simples, melhor. Basta serem seguros e higienizados.

Sons de brinquedos atraem os bebês pela relação causa-efeito. Isto significa que não é preciso brinquedos que cantem ou falem (aliás, eles costumam, com o tempo, mais irritar do que agradar). Um chocalho, que pode ser feito com um pouco de macarrão, feijão, arroz ou milho em frasco bem vedado, atende bem às necessidades do bebê. Os sons produzidos pelo bebê também o divertem, permitindo o jogo de imitações. Desta forma, vale repetir os sons e bocas que ele faz e depois convidá-lo a repetir os nossos, seja face a face ou em frente ao espelho.

Tapetões com arco e penduricalhos são bastante atraentes para os bebês desta faixa etária, mas como seu uso se limita a uma superfície plana e a um tamanho de bebê (os bebês grandes, aos seis meses, ficam “apertados” embaixo do arco), uma boa opção é substituí-los por pendentes construídos com barbantes, fitas, elásticos largos, tampas de plástico, pedaços de tecido e o que mais a criatividade encontrar. Tais pêndulos têm a vantagem de poder ser reinventados e fixados nos berços, carrinhos, entre pés de mesa ou cadeira, ou simplesmente ser segurados por quem está com o bebê.

As cadeiras de atividades, embora vendam o benefício da segurança e do entretenimento, não dão ao bebê a tão importante mobilidade corporal, e, por consequência, a opção de escolher como e com o que ele quer brincar. Por isso atendem mais às necessidades do cuidador, que precisa de um tempo para algum afazer, do que do bebê.

Embora os brinquedos comecem a fazer parte do cenário do bebê, é fundamental lembrar que a presença humana dedicada ao bebê é essencial para que ele possa desenvolver também a capacidade de ficar só. Nesta etapa da vida, brincar sozinho significa ter a oportunidade de escolher a brincadeira: rolar, chutar, colocar a mão na boca, dar gritinhos e assim por diante. Aos poucos, conforme o bebê sente-se seguro com a presença física de alguém a ele dedicado (não basta um corpo!), ele vai podendo brincar só sem que isto represente solidão, sentimento de abandono, desintegração ou mesmo uma defesa contra o ambiente. Este tempo vai aumentando conforme o bebê cresce amparado por esta conexão humana.

Neste processo de reconhecimento do outro como não sendo extensão de si próprios, os bebês precisam ser ajudados nas situações de ruptura para que elas não sejam vivenciadas com angústia excessiva. As brincadeiras de cadê-achou os ajudam a elaborar a ideia de que quem desaparece (vai embora), reaparece (volta). Esconder-se rapidamente atrás da roupinha que vai ser vestida, da toalha de banho, de um livrinho ou paninho é divertido e psiquicamente estruturante. Por isso, nada de sair de perto do bebê sem avisar aonde vai.

Brincar sozinho é bom, mas não o suficiente para um crescimento saudável. Momentos singelos, como a troca da fralda ou o banho devem incluir brincadeiras de interação. Nesse brincar, ganha o bebê e ganha o cuidador, já que ambos estreitam ainda mais seu laço afetivo. Brincar também é se relacionar, aprender estar junto e separado.

Nota: Este texto, publicado pela primeira vez em 02/12/2013 no antigo blog Ninguém Cresce Sozinho, foi revisado e alterado minimamente em seu conteúdo original pela autora.

Imagem: Google.

Sobre a Patrícia L. Paione Grinfeld.

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