A legalização da separação matrimonial, e do divórcio, ocorridas há algumas décadas em nossa sociedade, permitiu novos e distintos arranjos familiares. Contudo, apesar dessas mudanças, ainda escutamos em diferentes circunstâncias e meios que Fulaninho apresenta tal e qual comportamento porque os pais se separaram ou são separados.

Por mais que a vida dos pais interfira na vida dos filhos – e vice-versa –, cabem aqui duas perguntas essenciais: Será que a situação conjugal dos pais, isoladamente, pode determinar o comportamento de um filho? Separação do casal é o mesmo que pais separados?

Embora a conjugalidade dos pais seja um dos elementos responsáveis pela transmissão psíquica transgeracional – herança, que se dá via inconsciente, baseada nos modelos parentais das famílias de origem do casal –, precisamos tomar muito cuidado ao dizer que o modo como uma criança se relaciona com o mundo é [apenas] reflexo da situação conjugal dos pais. Ao fazer isso, ignoramos que a construção da subjetividade e o comportamento de uma criança se dão por multi-fatores, os quais abarcam, inclusive, a responsividade da criança ao ambiente; ou seja, a maneira como ela responde ao que ela vivencia a partir de seu repertório biopsicossocial.

Quando um casal com filhos se separa, não há necessariamente uma separação dos pais, assim como, pais não estão necessariamente juntos no exercício parental somente porque são casados ou compartilham uma vida sexual-afetiva. Conjugalidade e parentalidade não são sinônimos, embora mesmo com toda a diversidade das configurações familiares, ainda predomine em nossa cultura a ideia de que o casal parental seja um par conjugal.

Pais, enquanto casal parental (pai/mãe), exercem juntos a parentalidade quando, por exemplo, mantêm um diálogo e relacionamento harmonioso entre si, planejam e decidem conjuntamente as atividades e rotinas dos filhos, conversam sobre as opiniões divergentes e chegam a um ponto comum, entre outros. Pais, sejam casados ou não, estão separados no exercício de sua função parental quando não conseguem juntos planejar e tomar decisões que envolvem a vida do filho. São situações que vão desde pequenas desautorizações de um dos pais em relação à sua parelha, até a alienação parental, uma situação extrema que retrata bem o que é um “filho de pais separados”, uma vez que um dos pais faz com que o filho acredite que o outro (pai ou mãe) não lhe proporciona cuidados; com isso, além das infindáveis brigas do casal parental, o filho acaba se distanciando do alienado, convivendo somente com o alienador.

O conflito dos pais no tocante à vida dos filhos costuma gerar mensagens duplas e ambíguas, deixando os filhos sem referências e, portanto, angustiados e inseguros. Se de um lado isso pode resultar em comportamentos e atitudes nem sempre fáceis de serem aceitos socialmente, de outro, em seu reverso, tais comportamentos e atitudes são reflexo de um sofrimento e possivelmente um pedido de ajuda, de que se dê mais continência à criança, preservando-a do embate parental.

Filho de pais separados não é, de jeito algum, sinônimo de filho de pais descasados. Filho de pais descasados pode ter pais muito mais unidos do que um filho de pais casados. O que faz um casal parental não é a conjugalidade, mas a maneira como os pais se relacionam entre si e conjuntamente com o filho. Essa diferença não é uma mera questão de linguagem, mas a posição que os pais ocupam na realização de sua parentalidade, o que, por sua vez, implica na posição do filho perante os pais e sua própria vida.

 

Imagem: Google.

 

Texto escrito por  Patrícia L. Paione Grinfeld e Carla A. B. Gonçalves Kozesinski.

A Patrícia é psicóloga (PUC-SP), com pós-graduação em psicoterapia de casal e família (PUC-SP) e em psicanálise na perinatalidade e parentalidade (Instituto Gerar). Cursa especialização em estimulação precoce/clínica transdisciplinar do bebê (Instituto Travessias da Infância, Centro de Estudos Lydia Coriat-SP e UniFVC). Foi sócia-fundadora e integrante da equipe do Instituto Therapon Adolescência. Da atuação na saúde mental, migrou para a área comercial, trabalhando com atendimento ao cliente e comércio eletrônico. Em 2004 a carreira ficou de lado para dedicar-se à família. No retorno às atividades profissionais, além da atuação clínica, foi técnica do Programa Palavra de Bebê do Instituto Fazendo História. Desde 2012 é sócia-fundadora da Ninguém Cresce Sozinho.

A Carla é psicóloga (USP), psicanalista, mestre e doutoranda em psicologia clínica (USP). Tem formação em acompanhamento terapêutico (Céu Aberto), aprimoramento multiprofissional em saúde mental (FAPESP) e pós-graduação em psicanálise na perinatalidade e parentalidade (Instituto Gerar). Trabalhou durante nove anos na área da saúde mental e desde 2012 atua na Vara da Infância e Juventude. Foi membro fundadora do grupo Gesto-Rede Psicanalítica (2007-2016) e sócia da Ninguém Cresce Sozinho (2016-2018). Atualmente integra o Laboratório de Saúde Mental e Psicologia Clínica Social do Instituto de Psicologia da USP, atende em seu consultório na cidade de São Paulo e é coordenadora de serviços na Ninguém Cresce Sozinho.