O título, e tema, deste post foi inspirado no texto O dia em que parei de mandar minha filha andar logo, de Rachel Macy Stafford. Seu depoimento, que tem provocado lágrimas, suspiros, desespero e coragem em muitas mães (e pais), espelha a realidade da grande maioria dos mortais: a infindável maratona de correr contra o tempo para dar conta de todos os compromissos, entre eles, os filhos!

Não é nenhuma novidade dizer que o tempo da criança nem sempre é o mesmo do relógio. Então, o que fazer para que a incompatibilidade destes dois tempos deixe de ser um problema?

Em seu relato, a autora conta como fez para que seu próprio tempo, cravado no tempo do relógio, não assolasse o tempo da filha, lembrando, inclusive, que é bem mais fácil banir o “anda logo” do vocabulário do que adquirir a paciência para esperar pela vagarosa criança. O grifo, aqui, é meu.

Quando não conquistamos este olhar, o ritmo da criança imprime a indelével marca do ser menos (rápidos, capazes, espertos e por aí vai), anulando o extraordinário sentido da vagarosidade infantil: a genuína capacidade de observar, se interessar, explorar, questionar, descobrir, desfrutar.

Isto me faz lembrar a expressão de surpresa de um menino ao ouvir sua mãe contando que quando ela era pequena via anjos entre as nuvens.  Penso que pela pressa, pelos tetos que nos cobrem, pelos muros que nos cercam, pelos processos que já vêm prontos, este menino talvez não tenha olhado – ou podido olhar – para as nuvens.

As crianças estão inscritas no mesmo ritmo frenético dos adultos. Mesmo brincar acaba, muitas vezes, entrando no pacote onde habitam as atividades extraescolares e as telas: o ter que se ocupar pela impossibilidade de viver a ociosidade do tempo, o não fazer nada, a falta. Se o tempo todo somos ou estamos “preenchidos”, não sobra espaço para imaginar, sonhar, criar, aprender, correr atrás. Assim estão crescendo nossas crianças.

Para ver anjos nas nuvens é preciso parar. Então, anda logo, não temos tempo!

 

Nota: Este texto, publicado pela primeira vez em 02/09/2013 no antigo blog Ninguém Cresce Sozinho, foi revisado e alterado minimamente em seu conteúdo original pela autora.

 

Imagem: Google.

 

Texto escrito por Patrícia L. Paione Grinfeld.

A Patrícia é psicóloga (PUC-SP), com pós-graduação em psicoterapia de casal e família (PUC-SP) e em psicanálise na perinatalidade e parentalidade (Instituto Gerar). Cursa especialização em estimulação precoce/clínica transdisciplinar do bebê (Instituto Travessias da Infância, Centro de Estudos Lydia Coriat-SP e UniFVC). Foi sócia-fundadora e integrante da equipe do Instituto Therapon Adolescência. Da atuação na saúde mental, migrou para a área comercial, trabalhando com atendimento ao cliente e comércio eletrônico. Em 2004 a carreira ficou de lado para dedicar-se à família. No retorno às atividades profissionais, além da atuação clínica, foi técnica do Programa Palavra de Bebê do Instituto Fazendo História. Desde 2012 é sócia-fundadora da Ninguém Cresce Sozinho.