Ninguém Cresce Sozinho | Entre o baby blues e a depressão pós-parto
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Por Patrícia L. Paione Grinfeld

Os jargões diagnósticos estão na “boca do povo”. Assim, não é de se estranhar que, com a chegada do bebê, a mulher, tomada por um amontoado de novas experiências e sentimentos quase sempre contraditórios e incômodos, seja prontamente “classificada” (por ela mesma, pela família, pelos amigos, enxeridos ou especialistas) com o benigno baby blues ou com a temida e epidêmica depressão pós-parto (estudo revela que 25% das brasileiras são acometidas pela doença).

Em comum, ambos são marcados pela sensação de “não dar conta” – do bebê, de si própria e de tudo mais que os envolve. Acompanhado por tristeza e choro intermitentes, o baby blues tem seu início por volta do terceiro dia após o nascimento do bebê, quando os hormônios da gestação cedem lugar à produção do leite. Mas não são apenas os hormônios que colocam a mulher neste estado. Mulheres que tiveram bebê prematuro e mulheres adotantes (logo, livre dos efeitos hormonais diretos) também costumam viver o blues, sinalizando que a mudança de humor e a insegurança que a acompanha tem um estreito elo com as vivências recém experimentadas e o árduo trabalho psíquico de elaboração das mesmas – desde os ajustes domésticos até, por exemplo, a transição da posição de filha para mãe.

Enquanto o blues puerperal dura em média uns 20 dias e seus sintomas vão gradativamente diminuindo na medida em que a mãe vai conhecendo seu bebê e ganhando maior confiança na relação com ele, os sintomas da depressão não passam com o tempo, mas persistem e são intensos, podendo afetar a capacidade da mãe de cuidar do seu bebê, bem como colocar em risco o bem-estar (e em casos severos, a vida) da mãe, do bebê e da família. Entre os sintomas da depressão pós-parto destacam-se: sentimento de incapacidade materna, dificuldade ou medo de cuidar do bebê, sentimento de rejeição ou de posse em relação ao bebê, sensação de não se ligar ao bebê, pouca satisfação em relação à maternidade, perturbação diante de qualquer solicitação do bebê, descrição do bebê como tendo temperamento difícil, maior dependência do ambiente, isolamento social, sentimento de falta da vida que tinha antes da chegada do bebê, vontade de fugir, medo do bebê morrer e, em algumas mulheres, pensamentos relacionados ao suicídio e/ou filicídio. Vale sublinhar que nuances desses sintomas podem aparecer em mulheres na perinatalidade sem que se configure um quadro depressivo.

Diferentemente do baby blues que aparece e desaparece “sem avisar”, a depressão pós-parto não se desenha pela chegada do bebê per si. A chegada do bebê, por vezes (ou somada a) a experiência do parto, da gestação ou ainda da concepção, ativa ou potencializa conflitos já existentes, principalmente os mais primitivos e, por consequência, mais difíceis de serem identificados e tocados. Isso traz a corriqueira sensação de “de onde vem tudo isso?” (em especial quando a maternidade e/ou o bebê são/foram desejados), assim como justifica nesses casos a necessidade de psicoterapia, mesmo que haja tratamento medicamentoso. É somente através da psicoterapia que os conteúdos primordiais e “escondidos” poderão ser acessados e trabalhados.

Entre o baby blues e a depressão pós-parto, contudo, há um leque de angústias que parecem “estender” o período do blues ou confundir como depressão pós-parto algo que não é depressão, mas sim um sofrimento, que tanto pode se transformar em depressão se não houver nenhuma intervenção, quanto pode estar sendo silenciado pelo uso de medicamentos em lugar de dar sentido ao sintoma (que visa, no mínimo expressar tal sofrimento).

A angústia perinatal diz de uma intensidade de sentimentos que não encontram palavras para descrever a experiência, quer seja do processo de concepção, da gestação, do parto ou do pós-parto. Ela costuma se apresentar através de medos, somatizações, sensações estranhas, insônia, hipersonia, choro, etc., pontuais ou não, numa espécie de reapresentação de vivências remotas de desamparo. Pode, também, estar associada a vivências perinatais diversas – por exemplo: dificuldade para engravidar, gravidez não desejada, pensamentos ou tentativas de interrupção da gestação, lutos perinatais, suspeita ou confirmação de má-formação ou patologia no bebê, violências experimentadas no pré-natal, parto e pós-parto imediato, entre inúmeras outras – que se tornam traumáticas vez que “encarnam” algo da experiência da mulher que não pôde ser nomeada lá atrás, nem quando de sua revivência.

A título de elucidação, tomemos a situação de uma mulher que na gravidez ouviu de diversas fontes que se alimentava mal. Em sua cadeia associativa, quem se alimenta mal não tem como ser boa nutriz do próprio filho. E qual o melhor alimento para um recém-nascido se não o afeto? Resultado, essa mãe chorava copiosamente, dia e noite, sentindo-se a prior criatura (ou criadora?) do mundo! Na medida em que sua angústia foi escutada e nomeada o choro transformou-se em palavras, as quais ela também pode oferecer ao bebê. Do ponto de vista psíquico, a nomeação da angústia possibilitou a esta mãe reconhecer e construir recursos para oferecer a seu bebê. Ela não estava mais esvaziada, sem sustento para seu rebento.

Acolher a angústia de quem atravessa a perinatalidade não costuma ser uma tarefa muito simples. Primeiramente porque para que se possa acolher o sofrimento psíquico é preciso não temê-lo, ter alguma empatia por quem o apresenta e acima de tudo não confundi-lo com frescura ou algo semelhante, nem acreditar que ele “passa com o tempo”.  Em segundo lugar, mas não menos importante, nosso modelo de atenção à saúde volta-se sobremaneira ao organismo, fragmentado, pode-se dizer, pelas tantas especialidades que se dirigem às partes do corpo e não a ele todo, como se o que nele é vivido não ressoasse no psíquico e vice-versa.

Ter um bebê não muda apenas o corpo. Ter um bebê mexe em raízes profundas, o que torna impossível à mulher “dar conta” da trabalheira emocional sozinha. Por isso é essencial uma rede de suporte (no pré-natal, parto e puerpério) que possa criar espaços de acolhimento da angústia da mulher (e também do homem, é claro) em sua singularidade. Esses espaços, geralmente relacionados a espaços físicos como consultas obstétricas e pediátricas, grupos para gestantes e puérperas, berçários, centros de convivência e cultura, entre outros, precisam, sobretudo, ser compostos por pessoas que tenham disponibilidade interna para este acolhimento (por isso que o trabalho de acolhimento na perinatalidade não se limita apenas à mãe e ao bebê, mas precisa incluir a família e todos aqueles, inclusive profissionais, que a eles se dedicam – é o “espaço que tem dentro de cada um” que permite ou não o acolhimento). Do contrário, se as angústias vividas na perinatalidade não puderam ser faladas, escutadas e nomeadas, a vinculação mãe-bebê e o processo de construção da parentalidade ficam, em alguma medida, ameaçados.

Imagem: Google.

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