Ninguém cresce sozinho | Diferentes formas de escutar as crianças
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Por Tatiana Machado*

Quando guri, eu tinha de me calar à mesa: só as pessoas grandes falavam. Agora, depois de adulto, tenho de ficar calado para as crianças falarem. (Mário Quintana, Azar.  In:  Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. p. 975)

Já tem algumas décadas que nosso poeta captou e expressou, de forma tão singela e bonita, uma mudança cultural importante no que diz respeito ao posicionamento das crianças no seio da família: se ontem elas se calavam para que adultos falassem, hoje os adultos é que se calam para ouvi-las.

Uma mudança de perspectiva interessante, que pode vir a contribuir (ou não, já que não há garantias) com a criação de sujeitos mais antenados com os próprios sentimentos e, talvez, mais propensos à gentileza, gerada por aquela que foi recebida.

Mas como escutar, me pergunto, o que as crianças têm a dizer? E como respeitar seus sentimentos a partir dessa escuta? O que a criança diz é exatamente o que ela sente? O que dizemos nós, pessoas adultas e supostamente maduras, é o que sentimos?

Uma vez que a vida concreta ajuda a dar cor e forma a reflexões abstratas, vou contar uma história. Uma garotinha simpática e esperta começa a frequentar aulas de natação. Ela já tem seus 6 ou 7 anos e não sabe nadar, mas gostaria muitíssimo de aprender, conforme contou aos pais. A família se mobiliza, leva a garotinha para a escola de natação e a acompanha em suas descobertas. Ela sai das aulas iniciais feliz e desejosa de retornar. Mas nas aulas seguintes, afirma, muito tranquila, estar sem vontade. Considerou excessivas as aulas semanais de natação. Um argumento muito coerente (e até bem adulto, diríamos), afinal, sua agenda ficaria apertada com tantas aulas por semana.

Ela manifesta sua vontade e explicita a razão por trás dela, muito convincente. A família a escuta, mas escuta para além de sua fala. A família “escuta” sua expressão de angústia nos momentos em que entra na água. A família “escuta” seu histórico de vontade de desistir em situações novas e assustadoras. A família “escuta”, enfim, seu medo de prosseguir, mas “escuta” também seu desejo de nadar. Jogando o jogo das tentativas e erros – que é afinal tudo o que podem fazer aqueles que se ocupam de criar crianças – a família permite uma falta, mas força a barra na aula seguinte. “Ignora” os apelos da criança e a leva para uma atividade que ela “não quer”. Ou quer?

O desfecho da história? Para esta reflexão, não importa. Não se trata de discutir uma técnica de educação infantil, mas de pensar sobre as muitas formas de se escutar as crianças no dia a dia. Não é preciso ser profissional da psicologia para perceber que, inúmeras vezes, as pessoas não dizem o que gostariam de dizer, ou manifestam em palavras exatamente o contrário daquilo que desejariam. Ou talvez manifestem parte do seu desejo, porque, de fato, é muito frequente que a gente queira e não queira, ao mesmo tempo, alguma coisa. Afinal, a ambivalência – essa presença simultânea de sentimentos opostos em relação a uma mesma coisa ou pessoa – faz parte da experiência humana.

Escutar, então, não é apenas ouvir as palavras que são ditas, mas apreender o contexto da comunicação, aquilo que se comunica sem palavras, que se revela através de gestos e atitudes, que se mostra nos silêncios. Mas como ler as entrelinhas, como escutar o que não foi verbalizado? Penso que é a relação íntima e interessada com outro ser humano que permite tais voos. Voos porque não são mais do que apostas, esforços de compreensão do outro. E se são só esforços de ir na direção do outro é preciso estar atendo ao que ele responde, porque é a resposta do outro à nossa investida de compreensão que ajudará a mostrar se estamos ou não em um bom caminho. Aqui, o resultado importa: a garotinha queria muito nadar e, com esforço e apoio dos pais, foi conseguindo enfrentar seu medo e seguir com as aulas de natação. Mas o desfecho, poderia ter sido outro. Ela poderia ter adoecido, ou ter se machucado mais seriamente, ou ter apresentado outras tantas respostas ditas e não ditas que sinalizariam o equívoco dos pais, caso a “forçação de barra” – ou a aposta de que o “não querer” tinha um “querer muito”, não fizesse sentido à criança e à família.

Lidar com as angústias e sentimentos de crianças pequenas não é tarefa fácil. Tenho visto muitos apelos aos pais para que respeitem os sentimentos dos filhos sem jamais os desprezar. “É preciso escutar as crianças e respeitar seus sentimentos”, lemos e ouvimos cotidianamente, da blogosfera materna à voz dos especialistas.

Recomendações interessantes e pertinentes que, levadas às últimas consequências, provocam reflexão. Se é fundamental respeitar o sentimento do outro, mesmo que ele nos pareça banal, como o choro da criança que perde o pirulito (para usar um clichê), penso que não podemos nos furtar a ocupar nosso papel – como adultos responsáveis – de referência para aquela criança. Diante desse choro, podemos, com a boa intenção de respeitar o sentimento da criança, supervalorizar a perda, alimentando o sofrimento. Ou podemos, sem desprezar sua dor, lembrá-la de que o mundo é mais amplo e que, quem sabe, outros pirulitos e coisas ainda mais interessantes surgirão. Isso seria oferecer outras referências, outras possibilidades de enfrentamento do problema que sua imaturidade não lhe permitiria acessar sozinha. Não estou me referindo a nenhuma operação complexa, ao contrário, estou pensando nessas cenas cotidianas que mães e pais protagonizam o tempo todo, como responder à criança: “Puxa, que chato que você perdeu o pirulito. Mas, venha cá, você viu aquele balanço ali, que legal?! Vamos balançar um pouco?”. Em outras palavras, fomentar um cenário de luto pela perda do pirulito pode parecer respeito ao sentimento da criança, mas pode também implicar em desrespeito ao seu potencial para o crescimento e amadurecimento.

Se a passagem da criança que deve se calar à criança que é escutada constitui um ganho do processo civilizatório e, individualmente, ganho em termos de desenvolvimento psíquico, convém que não nos esqueçamos, entretanto, de ocupar nosso lugar de fala nessa mesa familiar. Que possamos escutar e escutar muito, para além e aquém daquilo que é verbalizado, mas que não nos calemos, sob pena de deixar as crianças falando sozinhas.

* Tatiana Machado é psicóloga formada pela USP-Ribeirão Preto, mestre pela Unesp com pesquisa realizada na área de psicologia e sociedade. Tem treinamento em psicoterapia breve de orientação psicanalítica e pronto atendimento psicológico (Unicamp) e especialização em psicanálise, perinatalidade e parentalidade (Instituto Gerar).  Em sua clínica na cidade de Araraquara-SP, além de atendimentos individuais, desenvolve atividades para mães e famílias: rodas de conversa, pré-natal psicológico, pronto atendimento psicológico no pós-parto, entre outras. Contato: taimachado@yahoo.com.br.

Imagem: Google.

1Comentário
  • Luiza Paim
    Postado às 20:09h, 12 março

    Excelente texto. Incrível como sintetiza brilhantemente o que aprendi – e ainda aprendo – a duras penas. Escutar, olhar, compreender, elaborar (a partir do que sou) o discurso da criança. Estamos em tempos de mudanças culturais e, em vez de lamentarmos a mudança à la Mario Quintana, é preciso compreender e adaptar nossas ações e reações a esses novos tempos, tempos de educar com consciência.

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