Ninguém cresce sozinho | O papel da escola no processo de desfraldamento
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Por Patrícia L. Paione Grinfeld

A creche e a escola, enquanto espaços coletivos, são sempre potentes para a aprendizagem. Nelas, crianças pequenas se identificam umas com as outras, descobrem coisas juntas, aprendem por imitação.

Quando a aprendizagem em questão é o uso do penico ou vaso sanitário, o ambiente coletivo pode contribuir – e muito – para a aquisição individual da nova habilidade, sem que isso signifique desfraldar todas as crianças ao mesmo tempo, de modo massificado, através do chamado desfralde coletivo, o qual facilita a rotina escolar, mas não considera as particularidades de cada criança.

Sabemos que garantir um olhar atento e singular no ambiente coletivo é sempre um grande desafio aos educadores. Porém, quando família e escola trabalham em parceria, esse olhar é facilitado, favorecendo o desenvolvimento integral dos pequenos.

Se a escola considera que a criança está em condição de iniciar o desfraldamento, é preciso que o processo seja pensado junto com a família. Do mesmo modo, a família deve comunicar a escola quando tem a intenção de dar início ao processo.

Escutar o que cada uma das partes (família e escola) pensa, teme e espera é o que possibilita evitar o surgimento de um clima de competição entre a família e a escola, e entre os profissionais da escola, sobre “o melhor jeito de lidar com a criança”. Se essa competição, cujo pano de fundo é a divergência de expectativas, ideias, opiniões e posturas, se instala, a criança pode ficar muito confusa com a distorção das mensagens que ela recebe de cada uma das partes, podendo inclusive se sentir em falta com o(s) adulto(s) que ela não atende.

Para evitar descompassos dessa ordem, a família e a escola devem ser parceiras nas ações com a criança, conversando sobre suas expectativas e definindo conjuntamente o início do desfraldamento, considerando as estratégias que serão usadas e a maneira como lidarão com os eventuais “acidentes”. Sempre que possível a conversa com a família (preferencialmente de forma privada e não na frente da criança ou de outras pessoas) deve incluir o casal parental e não apenas a mãe ou o pai (ou outro adulto responsável), já que eventuais discrepâncias sobre como cada um encara o processo do desfralde precisam ser debatidas previamente.

T. Berry Brazelton, pediatra americano e importante estudioso sobre o desenvolvimento infantil, sinaliza em seu livro Toilet Training: The Brazelton way alguns pontos que merecem atenção da escola no que se refere ao desfraldamento de seus alunos:

Aceitar cada criança como ela é, no estágio do desenvolvimento em que ela se encontra. O professor pode admirar cada pequena conquista do aluno, mas sem fazer grande alarde, pois isso o expõe diante dos colegas em relação àquilo que antes ele não conseguia fazer. Frente a uma nova aquisição, deve-se perguntar à criança se ela topa que sua conquista seja comunicada à família. Muitas vezes é a criança quem quer contar (não necessariamente no mesmo dia), o que merece ser respeitado.

Ter um banheiro adaptado às necessidades das crianças (com vaso sanitário infantil, pias baixas, penicos, portas acessíveis – muitas escolas de educação infantil optam pela ausência delas) e com coisas interessantes à disposição para que elas possam se entreter enquanto estão sentadas no “trono” (como livros para ler, quadros para olhar, blocos de desenho para desenhar). Se a criança tem um ritual em casa, como ler um livro ou levar um boneco, o mesmo deve ser mantido na escola.

Ter um adulto que não sofre a pressão de precisar desfraldar a criança acompanhando-a no banheiro, tanto para fazer-lhe, como para oferecer-lhe suporte na higiene. Isso pode ser pensado desde a troca das fraldas, ao se designar para se ocupar desta tarefa um profissional que não seja o professor.

Garantir à criança que não desfraldou ou que teve retrocessos a tranquilidade de estar no grupo sem ser ridicularizada pelos adultos ou demais crianças. Além dessas situações poderem se configurar como bullying, elas podem incutir na criança a ideia de incompetência ou fracasso e, assim, afetar seu desenvolvimento cognitivo, social e emocional.

Evitar em sala de aula comparações sobre os processos de desfraldamento das crianças. Ao surgir o tema entre elas, o professor precisa estar preparado para conduzir a conversa, especialmente quando ela é carregada de comparações. Isso precisa ser trabalhado a fim de que a criança que não saiu da fralda não se sinta inferiorizada. O tema do desfraldamento pode ser incluído nas reuniões de pais, já que estes, quase que invariavelmente, acabam comparando seus filhos às outras crianças, tanto positiva quanto negativamente.

Por fim, mas não menos importante, acrescento que a escola deve favorecer à criança situações e atividades em que ela possa estar no controle, no sentido de ter autonomia e poder decidir e fazer por si mesma, criando, explorando e descobrindo o próprio corpo e o ambiente. Afinal, como ser protagonista de um processo tão importante como o desfraldamento se à criança não é dada a condição de conhecer o próprio corpo e de desejar e fazer coisas com ele, por si própria e não para agradar quem dela cuida?

Imagem: Google.

1Comentário
  • Ivanílson Santos
    Postado às 11:45h, 11 fevereiro Responder

    O importante é conhecer o desenvolvimento da criança e respeitá-lo, só assim será possível que o desfralde ou mesmo todo esse processo de transição ocorra sem muitos problemas.

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