Todos nós conhecemos alguma situação de bullying no ambiente escolar: uma criança (ou um grupo de crianças) provoca outra escondendo sua mochila, colocando chiclete mastigado em sua cadeira, caçoando de sua aparência, apontando o dedo para algo que ela [supostamente] fez, arremessando uma bola de papel em sua cabeça ou algo similar.
Se quem é provocado sinaliza que não gostou da afronta e algum reparo é estabelecido por quem provocou (no mínimo, um pedido de desculpas), ótimo! Um ponto final pode ser colocado na zombaria. Porém, sabemos, nem sempre essas agressões cessam; pelo contrário, costumam tornar-se recorrentes (geralmente entre as mesmas crianças), exigindo da escola um trabalho permanente no combate ao bullying.
Como ocorre em outras formas de violência, no bullying há uma dinâmica relacional em que agressor e vítima estão identificados com o agressor[1], de tal modo que um inexiste sem o outro. O agressor, que em algum momento foi vítima (das mais variadas formas de abuso a que somos sujeitados desde o início da vida), tenta sair da posição de submissão submetendo o outro a si: sou eu que sei, sou eu quem pode, sou eu quem manda, sou eu quem decide etc. A vítima, por sua vez, se identifica tanto com a culpa do agressor (como ela não entende o “ataque”, sente-se responsável pelo ocorrido), quanto interioriza o indissociável par agressor-agredido[2]. Assim, mantém-se na sua conhecida posição de passividade e inferioridade (não sei, não posso, não mando, não decido etc.), impedindo que a dinâmica seja rompida.
A identificação com o agressor mostra que no bullying sempre existe duas vítimas: a vítima da cena atual e o agressor, que é vítima em outras relações – suas necessidades, pensamentos e desejos não são levados em conta pelo outro. Desse modo, a agressão contra alguém revela um, ou melhor, dois pedidos de ajuda; afinal, sabemos o quanto as pessoas submissas sofrem pela dificuldade em poder ser elas mesmas.
A escola tem papel fundamental nessa ajuda, na quebra desse funcionamento violento e repetitivo. Para tanto, antes mesmo que ações voltadas aos envolvidos nos episódios de bullying sejam colocadas em prática, é imprescindível que ela própria avalie como se coloca nos contextos em que pares complementares de dominação/submissão se estabelecem. Como é a relação entre quem manda e quem obedece na escola? É de hierarquização ou de subordinação, no sentido de que um determina e o outro “abaixa a cabeça”? Como é a relação entre quem sabe e quem não sabe/precisa aprender? As diversas formas de saber dos alunos, pais/responsáveis, professores, funcionários e demais colaboradores são consideradas ou ignoradas? E a relação entre quem tem e não tem, resulta em tratamentos distintos (por exemplo, num evento ou passeio alguém fica de fora por algum tipo de discriminação)?
Quando questionamentos como estes não estão presentes no cotidiano escolar, inclusive fora dos contextos de bullying, a escola acaba pendendo ora para o lado da vítima, ora para o do agressor, a depender de como ela também está situada nas suas relações de dominação/submissão – inevitavelmente, como todos nós, a escola transita nessas duas posições em diversas relações. Como resultado, pode, por exemplo, encarar as provocações do agressor e a passividade da vítima como “o jeito de ser de cada um” ou, nas situações em que a vítima revida, trabalhar na direção de reestabelecer o “equilíbrio” anterior – o que é uma dupla violência contra a vítima na medida em que não reconhece seu movimento de recusa à submissão.
Mais uma vez, lidar com o bullying na escola (ou noutro ambiente) não se limita a focar nos episódios de bullying. Embora seja fundamental retomar tais episódios para dar voz aos envolvidos (não como acareação, mas como expressão do que gera incômodo, sofrimento), essa voz precisa ir além da cena em si, se estendendo a todos os espaços, atividades e pessoas que compõem a escola, direta e indiretamente. Se não houver escuta, possibilidade de posicionamento – de todos e em todas as situações –, o paradigma dominação/submissão será perpetuado e as violências intensificadas.
[1] Identificação com o agressor é um conceito apresentado pelo médico e psicanalista húngaro Sándor Ferenczi no texto Confusão de língua entre os adultos e a criança (1932).
[2] A ideia de interiorização do par agressor-agredido é desenvolvida pela psicanalista Elisa Maria de Uchôa Cintra no texto Introjeção, incorporação e identificação com o agressor: considerações a partir de Sándor Ferenczi (2018).
Imagem: La Fabbrica Dei Sogni na Unsplash.
Sobre a Patrícia L. Paione Grinfeld.

