Ninguém cresce sozinho | Brincar: entre o faz de conta e a realidade
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Por Patrícia L. Paione Grinfeld

O brincar é a forma de expressão mais genuína da criança. Através dele a criança transita entre seu mundo interno e externo, revelando seus pensamentos, conhecimentos, desejos e fantasias. Brincando, ela aprende, testa suas hipóteses e limites, bem como seu ambiente; encarna distintos personagens, elabora suas experiências, resolve conflitos.

Contudo, aos olhos de muitos de nós, quando a brincadeira infantil apresenta conteúdo do “mundo adulto”, o faz de conta ganha status de realidade (lê-se: risco). Vejamos alguns exemplos.

Uma criança toca no genital da outra: “alguém pode ter tocado ou estar tocando nela”. Uma criança “fuma” um rolinho de papel que ela mesma fez: “cigarro não é coisa para criança” (e não é mesmo!). Uma criança passa maquiagem: “ela vai ficar erotizada”. Uma criança faz uma pistola e dá um “tiro” na outra: “isso incita a violência”.

Sabemos que pelo brincar a criança expõe como vai sua saúde mental e, quando há, seu sofrimento e possíveis violações de direitos. Por isso, a criança pode, através da brincadeira, nos contar que ela está sendo vítima de alguma forma de violência. Tomando os exemplos acima, uma criança pode tocar o genital de outra porque foi ou está sendo abusada sexualmente. Pode fazer cigarrinhos de papel porque fumar faz parte de seu cotidiano. Pode passar maquiagem porque não encontra barreiras que impeçam sua adultização. Pode brincar de dar tiro porque este é o seu universo, sua referência de mundo. Mas ela também pode tocar no genital de outra criança por mera curiosidade de querer saber como ele é (especialmente entre os 3 e 6 anos). Pode “fumar” um cigarro fictício na tentativa de entender porque tal objeto pode ser tão prazeroso para alguns e tão devastador para outros. Pode passar maquiagem para ver como ela fica com a boca e os olhos pintados. Pode dar um tiro de mentira para que sua agressividade encontre um desfecho possível.

Uma criança que toca o genital de outra da mesma idade por curiosidade não é ou se tornará um perverso (como é o caso de um adulto que tem qualquer atitude sexual para com uma criança). Embora um adulto fumante possa ter brincado de fumar na infância, ele não o é porque um dia fumou de mentirinha. Passar maquiagem, enquanto brincadeira, experimentação, não erotiza; o que erotiza é apresentar à criança conteúdos que a excita sexualmente e que ela, em função de sua imaturidade física e emocional, não dá conta de lidar. Brincar de atirar não faz da criança uma assassina ou alguém mais violenta; aliás, a criança precisa encontrar saídas saudáveis para escoar sua agressividade e também os demais afetos. E, na infância, o brincar é a melhor via para este escoamento.

Para que a expressão da criança não seja tolhida apenas porque a temática de sua brincadeira é “imprópria para menores”, tentemos olhar para a cena pela lente da criança. O que será que ela quer – saber, entender, transmitir, solucionar, elaborar – quando seu brincar é atravessado pela sexualidade, agressividade ou por elementos que fazem parte de um contexto adulto e/ou sociocultural que extrapola o meio familiar?

O primeiro passo para tentar compreender o sentido que a criança dá à brincadeira é não tomar a parte (um fragmento ou uma brincadeira isolada) pelo todo (o brincar da criança, ou ainda, a vida da criança). Se fizermos isso, não só nos ocupamos de preocupações infundadas (“procurando pelo em ovo”), como também corremos o risco de problematizar o que não é um problema ou patologizar o que não é uma patologia. Sempre que possível, precisamos observar a criança em outras situações de brincar, bem como levar em consideração seu momento de vida, tanto do ponto de vista do desenvolvimento emocional, quanto de seu contexto particular. A partir daí podemos ter alguma ideia sobre a serventia que determinada brincadeira tem para a criança, seja ela pontual ou recorrente.

Importante também termos em mente que a brincadeira em si não estimula a criança a comportamentos inapropriados à infância. Ao contrário, o “como se” do faz de conta é o que possibilita à criança experimentar o que não lhe é permitido ou adequado na concretude. Imaginemos – porque imaginar é um dos pilares do brincar, e as crianças bem sabem disso – o que aconteceria se as crianças não pudessem “voar” com suas capas de pano e asas que só elas conseguem sentir e enxergar. Será que elas se lançariam das janelas para experimentar o que é um voo?

Brincar é se expressar. Se toda brincadeira tem um fundo de realidade, tentemos entender, em cada situação, que realidade é essa, se ela pende mais para o mundo de fantasia ou para o real vivido pela criança.

Imagem: Google.

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