Ninguém cresce sozinho | Perinatalidade: emoções à flor da pele
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Por Patrícia L. Paione Grinfeld

Não temos dúvidas sobre as mudanças fisiológicas que ocorrem com o corpo da mulher na perinatalidade, período compreendido da concepção até aproximadamente o primeiro ano após o parto. Visíveis através das transformações corporais, tais mudanças estão na pauta de atenção e discussão sobre os fenômenos físicos que ocorrem na gestação, no parto e no puerpério, pela mulher, por quem está à sua volta, pela mídia. No entanto, não podemos esquecer que além das alterações corporais que ocorrem para que a mulher possa acolher e receber o bebê, ela também precisa realizar um intenso e complexo trabalho psíquico para tornar-se mãe e, assim, conceder ao bebê o lugar de filho.

Este trabalho, possível devido à maior permeabilidade psíquica em que a mulher se encontra nesta fase da vida (as defesas internas se rebaixam), faz com que ela viva, de modo mais ou menos acentuado, uma espécie de “emoções à flor da pele”. Não à toa, na perinatalidade lembranças são reavivadas, sonhos costumam não cair no esquecimento, perguntas antes sem importância ganham destaque ou são feitas pela primeira vez, mesmo que silenciosa e solitariamente, permitindo um encontro íntimo da mulher consigo mesma, num reencontro com o bebê que ela foi um dia. Consequentemente, também há um encontro com sua própria mãe, mais precisamente com a mãe de seus primórdios. Isso costuma desencadear, reacender, intensificar ou, em certos casos, solucionar conflitos com a mãe (ou sogra), o que acaba por respingar na relação conjugal e/ou familiar.

Diante do turbilhão de sentimentos, muitas vezes confusos e contraditórios, que tomam as mulheres na perinatalidade, algumas podem deixar de fazer coisas que faziam anteriormente ou mesmo se afastar de pessoas próximas e queridas; podem se sentir estranhas, esquisitas, diferentes do que sempre foram em decorrência da radical mudança de seus referenciais. Frequentemente relatam uma espécie de “enlouquecimento”, um não reconhecimento de si, o que, em outro período da vida poderia ser considerado algo patológico, mas que, na perinatalidade, até determinado grau, corresponde ao ajustamento à nova identidade e ao conhecimento que a mulher precisa adquirir em relação ao seu (desconhecido) bebê.

Se de um lado o retorno de experiências primitivas – como, por exemplo, a ternura no cuidado, em uma ponta, e a experiência de desamparo, na outra – é o que permite a mulher se identificar com seu bebê (e com isso, supor o que ele pode estar sentindo para poder atender às necessidades dele e gradualmente estabelecer sua função maternal), de outro, voltar-se para si própria é o que a possibilita elaborar um tanto das transformações pelas quais ela passa no processo de se tornar mãe.

Ainda que esse processo seja essencial para a relação mãe-bebê, reviver essas experiências tão arcaicas não é tarefa fácil, especialmente numa cultura em que prevalece a ideia de que a maternidade é um instinto (da ordem apenas do biológico), que romantiza, idealiza e normatiza o papel materno, e que oferece pouco espaço para acolher as diferenças e as angústias sem julgamento.

Precisamos lembrar que o nascimento psíquico de uma mãe não coincide com o nascimento biológico do bebê. Isto significa que, do ponto de vista psíquico, uma mãe não nasce quando nasce um bebê. Uma mãe é construída e reconstruída dia após dia a partir de sua história pessoal, das representações que ela e sua cultura têm do que é ser uma mãe e exercer a maternidade, das interações que estabelece com seu bebê e do suporte que recebe de seu ambiente.  Assim, se não considerarmos que as mudanças no ciclo gravídico-puerperal extrapolam as vivências corporais com tudo o que suas múltiplas facetas ecoam em cada mulher a partir de sua singularidade (e da singularidade de seu bebê), corremos o risco de ler as vivências da perinatalidade como “frescura de mulher” ou algo do gênero, negligenciando o suporte que toda mulher precisa na gestação, no parto e no puerpério.

Poder escutar a mulher sem julgamento, consiste numa parte importante do suporte que ela precisa para que possa ir encontrando maneiras de exercer a maternidade à sua maneira, de um modo que lhe faça sentido. A serviço desta escuta devem estar todos aqueles que se ocupam da gestante, da parturiente, da puérpera e do bebê. Este primeiro tempo da dupla mãe-bebê é essencial para o fortalecimento do vínculo materno-filial e, sobretudo, para a constituição psíquica do bebê e a construção da função maternal. Apoiemos este tempo!

Imagem: Google.

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