Ninguém cresce sozinho | Esperas, encontros e despedidas
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Por Patrícia L. Paione Grinfeld

Fim do ano potencializa a espera, os encontros e as despedidas, não necessariamente nessa ordem.

Espera de mudança, de continuidade. Esperança.

Encontros casuais, marcados, cancelados; conectados ou desconexos.

Despedidas pela conclusão, pela impossibilidade. Rompimentos favoráveis ou nem tanto. Alguns com muito sofrimento.

Milton Nascimento canta: a hora do encontro é também, despedida. Inevitavelmente. Ficamos juntos para podermos nos separar e nos separamos para podermos ficar juntos, de nós mesmos, dos outros. A ausência desse movimento – sempre junto, sempre separado – é patológica.

Entre os encontros, a espera. O tempo da angústia e da criação. O tempo do fio que tece ou dá nó.

Alimento-me das ilustrações de Serge Bloch e das palavras de Davide Cali, que aqui reproduzo, do tão profundamente belo e tocante livro Fico à espera… (Cosac Naify, 2007).

Fico à espera

… de crescer

… de um beijinho antes de dormir

…de que o bolo esteja pronto

… de que a chuva pare

… de que o Natal chegue

Fico à espera

… do amor

… do começo do filme

… de reencontrá-la

Fico à espera

… da partida do trem

… do fim da guerra

… de que ela diga sim

Fico à espera

… de um bebê

… de saber se é menino ou menina

… de que as crianças cresçam

… das férias

… de que o outro peça desculpas

Fico à espera

… de que os filhos telefonem

… de que o médico diga: “Não é nada”.

… de que ela não sofra mais

… de que a primavera volte

Fico à espera

… de que alguém bata à porta

… de que meus filhos me visitem

… de que, em breve, a família cresça.

A partir dessas palavras, teço as minhas, em O encontro e a despedida:

O encontro com a força. A despedida do frágil.

O encontro com a segurança. A despedida do medo.

O encontro com o sabor. A despedida da fome.

O encontro com a clausura. A despedida da liberdade.

O encontro com o novo ano. A despedida de mais um ano.

O encontro com o amor. A despedida da solidão.

O encontro com o começo. A despedida do fim.

O encontro. A despedida.

O encontro com o fim. A despedida do começo.

O encontro com a dor. A despedida da paz.

O encontro com a notícia. A despedida do sem saber.

O encontro com o sim. A despedida do não.

O encontro com a maternidade. A despedida do lugar de filha.

O encontro com o bebê. A despedida do corpo grávido.

O encontro com o crescimento. A despedida da dependência total.

O encontro com o novo. A despedida do rotineiro.

O encontro com as brigas. A despedida do ideal de amor eterno amor.

O encontro com a voz. A despedida do silêncio.

O encontro com a dúvida. A despedida da certeza.

O encontro com o sofrimento. A despedida da satisfação.

O encontro para a despedida.

O encontro com o vento. A despedida de ficar em casa.

O encontro com o calor. A despedida do frio.

O encontro com uma história. A despedida de outra. 

A espera, o recomeço.

Nota 1: Este texto foi imaginado a partir do meu encontro com um livro que eu ainda não conhecia, mas me encantei assim que o folheei numa livraria. E foi em momentos de espera, para novos encontros, que ele ganhou forma, depois de algumas despedidas. Que o novo ano venha cheio de saúde, esperas, encontros e despedidas, todos os dias!

Nota 2: Este texto, publicado pela primeira vez em 20/12/2013 no antigo blog Ninguém Cresce Sozinho, foi revisado e alterado minimamente em seu conteúdo original pela autora.

Imagem: Google.

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