Ninguém cresce sozinho | Falando com a criança sobre reprodução assistida: contar ou não contar, eis a questão
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Por Silvia Bicudo

Em minha experiência, trabalhando com homens e mulheres em tratamentos para engravidar, uma angústia frequente, que se desdobra em outras duas é: se, como e quando abordar com a criança a sua origem e, consequentemente, o tratamento pelo qual os pais passaram. Para se construir respostas a essas dúvidas é extremamente necessário que quem as faz possa entender quais são as angústias, receios e expectativas por trás das mesmas. Mais do que pensar se vai ou não contar para a criança sobre a origem dela, é interessante tentar entender por que será que falar com a criança sobre sua origem, nesses casos, vira uma questão.

Se pararmos para refletir, cada um de nós tem uma história própria que nos chega através de relatos entrecortados que ouvimos daqueles que nos cuidaram (sejam os pais, outros familiares ou cuidadores), às vezes de forma espontânea, e outras, através de perguntas que quando crianças fizemos a partir de nossa curiosidade. É importante ressaltar que a curiosidade acerca da origem dos bebês é aguçada nas crianças por volta dos 45 anos; por exemplo, a partir da observação de uma segunda gravidez da mãe ou de uma tia que levam-na a perguntar: “Como esse bebê foi parar na sua barriga?”. Ou quando começam a perceber as diferenças sexuais e culturais entre meninos e meninas, como acontece durante o banho ou xixi na presença de ou em conjunto com outras crianças. Enquanto pergunta e analisa os demais, a criança vai pesquisando a respeito de si própria e, à medida que vai crescendo, tal pesquisa se amplia e se adapta conforme sua fase do desenvolvimento e as experiências que vai adquirindo.

Assim, ao longo da vida, vamos colecionando tais relatos, costurando-os e recombinando-os na tentativa de construirmos uma narrativa particular sobre nossa origem. Podemos partir da história do relacionamento dos nossos pais, do desejo de um ou ambos os genitores pela gestação, pela descrição do dia do parto ou da experiência no hospital/maternidade; isto é, se houve alguma intercorrência, quem visitou, entre outras. Além disso, cada um desses fragmentos é sempre recheado de emoções e significados subjetivos dados por aquele que o relata.  Isso significa que um mesmo fato pode ser descrito de diferentes formas dependendo das experiências e vivências subjetivas de quem o está contando. Um parto prematuro, por exemplo, pode ser enunciado assim: “você foi apressadinho desde pequeno, já na barriga da sua mãe não quis esperar até o nono mês para nascer, surpreendeu a todos nós”, ou então: “quando você nasceu foi um momento muito conturbado, todos fomos pegos de surpresa, corremos para o hospital, mas não sabíamos o que ia acontecer com você…”, entre diversas outras possibilidades que apresentam para além de uma mera descrição narrativa, a visão e a compreensão de quem fala, sobre aquela determinada situação. Ou seja, a história de nossa origem nos chega através de outras pessoas e assim a ouvimos num primeiro momento, conforme o tom de quem as conta. Por isso ficam as perguntas: nas ocasiões em que a criança foi concebida através de alguma técnica de reprodução assistida, que sentidos podem ser dados a essa experiência? De quem é o receio em falar e saber sobre sua origem?

Uma das grandes preocupações, presente nos discursos dos casais, homens e mulheres em relação a contar ou não, é no sentido de querer poupar o filho pela particularidade de sua concepção, receando que a apresentação de sua história possa lhe trazer sofrimentos uma vez que ele tem uma origem “diferente da tradicional”. Mas quem sofreria com a revelação, o filho ou os pais?

Sabemos que um diagnóstico de infertilidade pode ser vivido de maneira muito dolorosa, muitas vezes como um atestado de impotência para aquele que o recebe. Nos casos em que não haviam pistas anteriores e mesmo nos casos em que se tinha uma ideia a este respeito, por exemplo, quando houve alguma cirurgia ou doença que atingiu o aparelho reprodutor durante a infância ou juventude, a notícia de uma dificuldade para engravidar é sempre impactante. Assim, frequentemente, aquele que a recebe tende a procurar referências e vestígios dessa “tal infertilidade”em seu círculo social. No entanto, a partir de uma leitura superficial de seu entorno – afinal, são poucas as pessoas que compartilham a real experiência de seu trajeto em direção à parentalidade, com todos os obstáculos, medos e dificuldades que ele traz – sente-se deslocado, “de fora”. Mas de fora do quê?

A pós-modernidade trouxe novos valores sociais e políticos através da internacionalização dos direitos humanos, da globalização, do divórcio previsto por lei, entre outros. Tais valores, no campo da família, implicaram e ainda implicam em reformulações a respeito de nossa compreensão acerca da mesma, que  agora possui as mais diversas configurações. Apesar disso, o modelo tradicional da família burguesa patriarcal heterossexual – mamãe, papai, filhinho –  atravessado pela moral religiosa, ainda é bastante presente em nossa cultura.

Tendo esse parâmetro como pano de fundo, como se apropriar de uma maternidade ou paternidade que do ponto de vista social se deu a partir de uma produção independente, desafiando o modelo patriarcal? Como se apropriar de uma parentalidade que se deu através do desejo de duas pessoas do mesmo sexo, desafiando o modelo heteronormativo? Como se apropriar de uma maternidade que desafia as leis da Igreja, tanto no que transcende o “natural” quanto na medida em que separa o sexo da procriação, como acontece numa fertilização in vitro?

E ainda, ao mesmo tempo em que a medicina reprodutiva amplia os possíveis arranjos familiares, nos libertando das limitações impostas pelo nosso corpo, temos, enquanto sociedade, uma visão conservadora de família. Ou seja, a tecnologia avança em uma velocidade maior do que somos capazes de acompanhar. Desse modo, ao tentarmos encaixar as configurações familiares que a reprodução assistida nos apresenta, nos padrões tradicionais, deixamos escorregar toda a complexidade do processo de tornar-se mãe e pai, reduzindo-o ao biológico.

Neste cenário, há um descompasso entre a abertura que as transformações sócio-culturais trouxeram para a conceituação de família e a apropriação genuína dessas novas formas – que demandam profundas reflexões. Me parece que é justamente neste descompasso que a angústia do adulto, referente à origem da criança, se ancora.

Sendo assim, é importante que os pais, sejam eles quem forem, se abram para a possibilidade de vivenciar as reflexões contidas em seus processos rumo à parentalidade, dando espaço para questionamentos e dúvidas que ultrapassam o “sim” diante da indicação médica, e não fechando os olhos e os ouvidos para as próprias inquietações. Para isso, muitas vezes é necessário buscar algum tipo de suporte, em grupo ou individual, que proporcione e promova a elaboração da vivência do tratamento para além do campo da informação. Ademais, é importante ressaltar que antes de tentar estabelecer quando e como contar à criança, é preciso conhecê-la e se (re)conhecer enquanto mãe e pai dela, caso contrário correremos o risco de padronizar todas as crianças e todos os pais, mais uma vez retirando de cena a subjetividade de cada um.

Assim, somente quando há a possibilidade de elaboração pelos pais acerca de suas próprias angústias em relação à maneira como a família se constituiu é que há também a possibilidade de falar sobre o tema com a criança de forma natural se e quando o assunto surgir de forma espontânea.

Nesse sentido não é possível estabelecermos idades e momentos previamente; ao contrário, é preciso escutar de forma atenta os questionamentos e as curiosidades que a criança vai apresentando, conhecer seus interesses, trocar com outros adultos com quem a criança convive no dia-a-dia para, através destas observações, ter tranquilidade em oferecer respostas e construir junto com ela sua história a partir das perguntas que ela coloca.

Isso não significa que o adulto estará isento de receios ou que a criança não será afetada pela sua história, mas que a origem em si não precisa ser uma questão causadora de angústias nem para a criança e nem para o adulto, já que a relação entre ambos é atravessada pela confiança e não pelo segredo, preenchida por sentidos e afetos e não por meias palavras e reticências. Sua história poderá ser compreendida enquanto “mais uma” dentro de milhares de outras possibilidades.

Vale ressaltar ainda que existem diversas maneiras de comunicarmos algo para alguém que não seja através da fala oral. Também nos colocamos através de expressões faciais ou do tom de voz, por exemplo. Nestas situações, as emoções escapam ao nosso controle e sempre acabam achando um meio de transparecer, encontrando no corpo um aliado, traidor de nossa racionalidade.  A criança pode não saber o que se passa, mas percebe que quando ela entra na sala, os adultos mudam de assunto bruscamente, que quando ela se aproxima do telefone a voz da mãe fica mais baixa ou que certas perguntas geram expressões de desconforto, tristeza, raiva, etc. Ou seja, ela pode não saber exatamente do que se trata mas percebe que algum conteúdo, em determinados assuntos,  promove uma alteração nos pais e isso sim é provocador de angústia porque ela sabe que algo não vai bem mas não sabe o que. É neste momento que ela pode começar a criar diversos fantasmas na tentativa de compreender o que se passa.

Além disso, muitas vezes o receio presente no discurso do casal ou de um dos pais acerca da origem da criança é em relação ao olhar dos outros – sejam os demais integrantes da família ou o círculo de referências na qual a criança estará inserida como a escola, os professores, colegas de classe e demais pais. Ora, por um lado é inevitável que a criança ao longo da vida enfrente situações nas quais o entorno não partilha de sua opinião ou ideia. Por outro lado, justamente por isso é importante que o ambiente familiar seja um ambiente de confiança e que permita a troca de sentimentos e valores, acolhendo as diferenças e as particularidades de cada um.

Imagem: Google.

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