Ninguém cresce sozinho | Mudar ou não o filho de escola?
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Por Patrícia L. Paione Grinfeld

Uma mãe nos escreve: Penso em mudar minha filha para uma escola mais bem-conceituada e mais próxima de casa. Entretanto ela está muito resistente a essa ideia, pois gosta da atual escola e de seus coleguinhas. Ela está com 4 anos e 10 meses.

Antes de comentar a questão desta mãe, considero importante apontar as principais razões que levam à mudança de escola: outras mudanças (cidade, bairro, proximidade da residência ou local de trabalho dos pais), motivos financeiros e incompatibilidade entre o que a família espera e a escola oferece (projeto pedagógico, desempenho escolar e sociabilidade da criança). Quando o que está em jogo é o desinteresse da criança pela escola, notas baixas e dificuldade de aprendizagem e/ou de inserção no coletivo, a mudança de escola só deveria se justificar depois de esgotadas todas as possibilidades junto à escola atual.

Muitas vezes, os pais e a criança imaginam que a mudança física é o melhor caminho para a solução dos entraves.  Porém, vale lembrar que o que é da criança ou da família será carregado com cada um deles, e não deixado para trás, exceto quando a escola não apresenta condições de lidar com os obstáculos emergidos.

Retomando a questão desta mãe, é inegável que estudar perto de casa facilita a vida de todos – sem contar a redução de tempo e custo com transporte – além de permitir, conforme a criança cresce, sua autonomia no ir e vir casa-escola-casa.

Quanto à ideia de “bem-conceituada” é preciso destrinchá-la ao máximo. O que significa uma escola bem-conceituada? Uma escola que está no topo do ranking de avaliações como o ENEM? Uma escola cujos alunos obtêm ótimos resultados no vestibular? Uma escola que tem fila de espera para ingresso de novos alunos? Uma escola que existe há muitos anos? Uma escola que dispõe de facilidades como atividades extracurriculares e períodos integral ou semi-integral? Uma escola que tem proposta pedagógica alinhada com os valores familiares? 

Sabemos que não existe escola perfeita, mas escolas que atendem as necessidades dos pais e seus filhos em uma gama de aspectos – educacionais, sociais, financeiros, logísticos, só para citar os mais comuns. Embora seja essencial que a escola tenha um projeto pedagógico que vá ao encontro do que os pais acreditam ser melhor para seus filhos, bem como uma relação de confiança mútua da díade escola-família, isto não é suficiente para se optar por uma escola ou outra. A escola precisa também ir ao encontro das demandas da criança, o que nem sempre é possível saber de antemão quais são, já que muitas delas só são possíveis de serem conhecidas ao longo do seu desenvolvimento. Daí a dificuldade da decisão e a necessidade de se apostar, calculadamente, nela.

A melhor maneira de saber se a escola pretendida atende às expectativas e demandas da família e da criança é conhecendo-a bem, tirando dúvidas com a coordenação e com pais de alunos. Visitar a escola em horário de aula e de entrada e saída de alunos  é uma boa maneira de obter elementos importantes para reflexão, questionamento e até mesmo tomada de decisão.

A criança pode ser envolvida na decisão da mudança. No entanto, é importante lembrar que as crianças que estão na Educação Infantil e no Primeiro Ciclo do Ensino Fundamental costumam, em função de sua maturidade, embasar suas decisões em critérios bastante simples, como querer/não querer, gostar/não gostar, o que é insuficiente para bater o martelo. Se os pais consideram a participação da criança importante neste processo, isto pode ser feito através de conversas que a ajude a falar de seus receios e ideias relativas à mudança.

Uma vez que os pais decidam pela mudança de escola (escrevo pais porque acredito que esta deva ser uma decisão tomada em comum acordo por eles), a criança precisa ser comunicada sobre os motivos da decisão, incluindo as perdas e ganhos nela envolvidos. Entre perdas e ganhos é importante assegurar o que se sabe sobre a nova escola, sem exageros ou invenções; por exemplo, dizer que na outra escola também haverá coleguinhas, mas não muito mais (não sabemos o tempo que a criança precisará para criar novos vínculos), que a outra escola é mais perto de casa, tem mais recursos e outros atributos que contribuíram para a escolha.

Como não temos como prever qual será a reação da criança, é bom estar preparado para toda sorte de manifestação, como por exemplo, a criança ficar brava ou calada, recusar ir à escola, ficar mais apegada aos pais, garantindo-lhe espaço para poder expressar e elaborar suas dúvidas, medos, angústias e inseguranças frente à desconhecida situação. Levar a criança para conhecer a nova escola pode ser uma estratégia interessante para diminuir suas fantasias sobre o novo ambiente, já sabendo que não são nulas as chances de a criança apresentar resistências em relação a ele. O mais importante é garantir, em todo o processo, um espaço de conversa franca e acolhedora. Se a escola atual tem condições de ajudar neste processo de transição, melhor ainda. Escola e família, juntas, têm suas potências aumentadas.

Mudanças sempre acontecem, fazem parte da vida. Quando amparadas, as crianças costumam se adaptar bem a elas; às vezes, melhor do que os próprios adultos.

Nota: Este texto, publicado pela primeira vez em 12/09/2013 no antigo blog Ninguém Cresce Sozinho, foi revisado e alterado minimamente em seu conteúdo original pela autora.

Imagem: Google.

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