Ninguém cresce sozinho | Mãe falha, e é bom que falhe
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Por Patrícia L. Paione Grinfeld

Certo dia, ao entrar no Facebook, ele me sugeriu um “Livro Completo para mães e bebês”. A primeira coisa que me ocorreu foi interrogar o adjetivo do título: Completo? Em seguida fui acometida pela estranha sensação de que o Facebook propõe algo muito semelhante àquilo que eu lia no anúncio da página sugerida – a completude.

Pelo meu histórico na rede virtual, ele “sabe” quais são os temas que ali me interessam, e por isso insiste em me sugerir páginas e grupos que trazem temas que me são atraentes.

Quando o Facebook pressupõe que meu mundo se restringe a esses interesses, partes da minha vida ficam de fora. Ele não dá conta de tudo. Ainda bem. Mas ali, naquele momento, com aquela sugestão, ele, que sabe um tanto da minha vida, e “pensa que sabe tudo”, provocou em mim a falsa impressão de que ele me conhecia. Isso é o casamento perfeito, o encaixe, a completude.

Minha interrogação inicial diante do anúncio não me levou a clicar no botão “curtir página”, como comumente faço diante de tais sugestões. Como resultado, por vezes seguidas, a sugestão apareceu na lateral do meu feed de notícias dizendo em palavras não ditas – e quase na forma de um mantra – “você vai gostar disso”. Uma ousadia tremenda alguém – que nem é uma pessoa – dizer o que eu vou gostar ou não.

Com mães e bebês acontece algo muito parecido. A mãe precisa pressupor o que o bebezinho gosta, precisa ou pede quando, por exemplo, ele chora. Naquela fração do tempo o bebê é um choro. Se a mãe consegue compreender a demanda do pequeno, bingo. Casamento perfeito, encaixe, completude. E a ilusão – necessária – de que “a mãe conhece tão bem seu bebê que ela (ou talvez, só ela) é capaz de cessar seu choro”.

Sabemos, contudo, que nem sempre essa situação se dá de modo tão redondo assim. Muitas vezes a mãe não consegue compreender o choro do bebê de imediato. A mãe falha. Ainda bem.

Essas pequenas falhas, e friso pequenas porque em algum momento as necessidades do bebê são atendidas (quando não, trata-se de outra questão que não vou me ater aqui), são inevitáveis e imprescindíveis para que o ser humano se torne capaz de suportar frustrações; para que o ser humano se torne capaz de lidar com a falta, a incompletude inerente, e por vezes insuportável, da nossa espécie. Somente quando essas pequenas falhas acontecem é que a relação de confiança e segurança do bebê com seu ambiente primordial pode ser construída.

Apesar de as falhas serem necessárias, a ideia de que a mãe não pode falhar faz parte do nosso imaginário. Suponho, por isso, que o tal livro faça sucesso, como outros tantos que fazem ou fizeram seguindo os mesmos moldes.

Um guia completo para mães e bebês sugere que ele tem tudo – afinal, se é completo, não lhe falta nada. Se ele tem tudo, como a mãe pode se autorizar a ter por ela mesma (ideias, intuições, desejos, suposições), a ser ela mesma? Se a mãe tem tudo, oferece tudo, como o bebê poderá reivindicar o que ele gosta, precisa, deseja? Como o bebê poderá ganhar voz própria, ainda que não fale?

É impossível saber tudo sobre maternidade, bebês e ser mãe. É desnecessário uma mãe saber tudo sobre maternidade e seu bebê. É insano uma mãe ser capaz de saber tudo sobre ela e seu bebê. As coisas escapam. Na relação entre a mãe e o bebê, pequenas coisas precisam escapar, sair do controle, surpreender, promover encontros pela magia do inédito e do imprevisto. É isso o que vai permitir cada um ser um. Este é o “saber” que precisa ser construído; um saber que se constrói na relação e a partir dela.

Imagem: Google.

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