Ninguém cresce sozinho | Abuso sexual: uma guerra de potências e impotências
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Por Patrícia L. Paione Grinfeld

Quando li Infância de retalhos, no blog Padecendo no Paraíso, encantei-me com a franqueza com que a mulher que o escreveu relata sua história pessoal de abuso sexual sofrido e silenciado por quase a metade de sua infância. Em cada linha, seu rico testemunho apresenta os meandros de uma trama comum e recorrente em diversas famílias, inclusive nas tradicionais, “perfeitinhas” e abastadas, mas que geralmente é mantida em segredo por anos a fio.

Como naquele texto, refiro-me aqui aos repetidos abusos sexuais intrafamiliares. Neles, o segredo costuma ser mantido porque é muito difícil para uma criança entender algo que é da ordem da angústia, do medo, da incompreensão, do desconforto e, ao mesmo tempo, do prazer – ainda mais quando esses sentimentos envolvem uma pessoa que assume diferentes papéis, como, por exemplo, tio querido e abusador. Não importa se criança ou adulto, a manipulação genital, por mais que seja agressiva ou aversiva, é também prazerosa. Além disso, pelo menos num primeiro momento, a fantasia de ser escolhido e, por consequência, ter um lugar preferencial na vida de alguém, contribui para dificultar a denúncia logo que os abusos se iniciam: Será que vale à pena interromper estes carinhos, brincadeiras ou atenção? A dúvida paralisa.

No meio desse paradoxo, algumas crianças tentam contar o que vivenciam, muito mais porque não conseguem compreender o que acontece com elas e com seus sentimentos (especialmente as crianças menores), do que por uma questão moral, que só surge conforme as crianças crescem e os sentimentos de culpa e vergonha ganham forma. Nebuloso como muitos sonhos, o abuso sexual parece sem sentido, ruim e bom, da ordem do consciente e do inconsciente. Não é por acaso que certas crianças tentam relatar aos adultos o abuso sofrido como se tivessem tido um pesadelo.

Denunciar explicitamente um abuso implica em ter que vencer o temor da repreensão. Como muitas crianças têm a fantasia de terem provocado a situação de abuso, elas preferem o sofrimento do silêncio ao sofrimento de uma suposta retaliação, o que se intensifica e se agrava nas famílias com histórico de pouco diálogo e ou muita violência.

A trama do abuso sexual não se rompe apenas quando a barreira da denúncia é vencida. Em muitos casos, por mais que a criança consiga denunciar, ela nem sempre encontra “ouvidos de ouvir” – expressão tão bem sacada pela autora citada. A necessidade de manter a estabilidade familiar, pelas mais variadas razões, impede a escuta por parte de muitos adultos. Além do mais, a dinâmica do abuso sexual é marcada por impotências que se camuflam de potências. Quais são as fragilidades do abusador, que no senso comum costumam ser chamadas de covardia, que o leva a se lançar nesse jogo em que ele é o todo poderoso, viril e dominador da situação? Quais são as fraquezas ou as ameaças dos “ouvidos que não ouvem”, que, mesmo desconfiando sem desconfiar, mantém a aparência de que tudo vai bem? Qual ser humano não se sente valorizado ao ser escolhido ou ao receber um olhar especial, ainda mais quando se é tão vulnerável como na infância?

A questão do abuso sexual é complexa e costuma atravessar gerações em segredo. Quantas não são as mães que só conseguem revelar sua história de abuso depois que suas filhas relatam o próprio. Ou, pais (homens e mulheres) abusados que tentam, em seu sofrimento silencioso, preservar os filhos através de atitudes superprotetoras. Diante dessas atitudes, ao invés de ajudá-los a realmente se protegerem, cometem outra forma de violência: o “cabresto relacional”, que mantém os filhos sob o controle parental, impedindo-os de fazer suas próprias escolhas.

Se na dinâmica do abuso o que está em questão são potências e impotências, para romper a impotência – transgeracional ou não – que mantêm os ouvidos sem ouvir, os olhos fechados ­e a boca cerrada, é preciso alguém ou uma situação realmente potente. No caso das meninas, muitas vezes essa potência se revela através de um corpo capaz de reproduzir. Nos abusos intrafamiliares, é bastante comum eles cessarem quando a menina entra na adolescência e a gravidez se torna possível. Nenhum abusador quer correr o risco de uma concepção, não por ela em si, mas porque ela revela um ato que o despotencializa. Então, para ele não ocupar o lugar de impotente, ele parte para outra “vítima”.

Muitas meninas, contudo, só conseguem fazer a denúncia e ou serem escutadas neste momento de ruptura. Sem o abusador em cena, as posições de potência e impotência são mais facilmente invertidas, permitindo com que as adolescentes consigam dar um basta – nesses momentos, a rebeldia adolescente revela uma saúde e potência incríveis.

Quanto aos meninos, vale uma nota, triste. Muitos adolescentes saem desse jogo não pela via da denúncia e proteção, mas pela mudança de posição, especialmente quando o abusador era alguém do sexo masculino. Como o modelo de homem potente é o abusador, o adolescente passa a abusar, geralmente, de crianças próximas a ele, recriando o mesmo ciclo.

A adolescente de Infância de retalhos encontrou potência nela mesma. Ainda criança, tentou proteger sua irmã do grande monstro. Resiliente, saiu do lugar de mera vítima, levantou a cabeça e deu um novo significado e destino à sua história pessoal e familiar. Recomeçou. Construiu uma família e hoje, certamente, escreve uma história sem silêncios e segredos. Uma história em que a potência está nas palavras e não no poder de um corpo mais forte ou de valores intocáveis. Uma história que dá lugar para o zelo, a proteção e a possibilidade de escolhas.

Proteger a criança contra o abuso sexual é ensiná-la sobre os limites entre seu próprio corpo e o corpo de um adulto; é ensiná-la o que cada um pode ou não fazer com esses corpos. Proteger é livrar o filho de qualquer submissão. Mas para isso, é preciso que primeiro nos livremos de certas amarras que mantém uma ordem aparente, como a de família perfeita. Para proteger a criança contra o abuso sexual é preciso, sem dúvida alguma, ter “ouvidos de ouvir” e força para enfrentar, primeiramente, os monstros que nos habitam.

Nota: Este texto, publicado pela primeira vez em 22/04/2014 no antigo blog Ninguém Cresce Sozinho, foi revisado e alterado minimamente em seu conteúdo original pela autora.

Imagem: Google.

4 Comentários
  • Paloma Vega
    Postado às 19:38h, 29 julho Responder

    “Proteger é livrar o filho de qualquer submissão. Mas para isso, é preciso que primeiro nos livremos de certas amarras que mantém uma ordem aparente, como a de família perfeita. Para proteger a criança contra o abuso sexual é preciso, sem dúvida alguma, ter “ouvidos de ouvir” e força para enfrentar, primeiramente, os monstros que nos habita”. – gostei muito do texto, Patrícia! Especialmente deste trecho… Texto claro, sucinto e corajoso! Cada vez mais encantada com o NCS… Ainda com vontade de fazer parte… Estou (com atraso) aquecendo os motores para a escrita!

  • Ivanílson Santos
    Postado às 09:34h, 20 janeiro Responder

    Muito bem colocado. Proteger a a criança, ensinando-a sobre os limites com o seu corpo, não permitindo que desconhecidos ou mesmos pessoas próximas possam abusar de sua intimidade colocando-a em sua situação de refém. Precisamos sim, abordar este tema com os pequenos de uma maneira adequada a sua idade, sem deixá-la em situação de coerção e sim, mostrar a ela que pode confiar a quem está protegendo-a.

    • Patrícia L. Paione Grinfeld
      Postado às 11:20h, 20 janeiro Responder

      Ivanílson, precisamos sim abordar este tema com os pequenos e com os adultos, que muitas vezes têm a equivocada ideia de que histórias de abuso sexual acontecem longe de casa.

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