A curiosidade e os questionamentos referentes à sexualidade surgem desde muito cedo na vida das crianças. A partir dos três anos elas ficam cada vez mais instigadas pelas descobertas no próprio corpo e no ambiente em que vivem. Sem pudor, muitas delas passam a exibir seu corpo desnudo, brincam na hora de fazer xixi, tomam banho juntas, pedem companhia na hora de evacuar, com a mesma naturalidade com que disparam uma infinidade de perguntas sobre a sexualidade humana: Por que o pipi do papai tem pelo e é maior que o meu? Tem nenê na barriga daquela moça? Como ele foi parar lá dentro? Eu posso namorar o papai? O que é transar?

A partir do momento em que as crianças são desfraldadas, elas passam a explorar mais seus genitais e região anal. Meninos percebem sua ereção e as meninas descobrem que a manipulação do clitóris pode ser muito gostosa. No escorregador, na cadeira, cruzando as pernas, sentados como índios e passando os pés no próprio genital, fazendo cavalinho na perna de um adulto, etc., as crianças se dão conta das sensações prazerosas vindas destas partes do corpo e, por isto, tendem a repeti-las sempre que possível, a sós ou em público.

Muitos adultos, contudo, não encaram a masturbação infantil como algo inerente ao desenvolvimento humano; ficam bastante desconfortáveis diante dela e, como resultado, usam palavras ou gestos repressores para impedir a exploração que a criança faz do próprio corpo. Nessas situações, é importante que possam refletir sobre os incômodos resultantes do gesto da criança e avaliar se o desconforto sentido refere-se a questões pessoais em relação à sua própria sexualidade.

Se a criança “brinca” sozinha com suas partes íntimas em momentos pontuais e a brincadeira não causa incômodo a outras pessoas, nem a exclui de determinadas situações, não tem por que interrompê-la. No entanto, é importante pontuar para a criança que a masturbação não pode ocorrer em qualquer lugar e nem com a participação de outras pessoas. Uma forma de traçar os limites do que é socialmente aceito ou não, é verbalizar que por mais gostoso que seja brincar com os próprios genitais ou ânus, esta é uma brincadeira que se faz sozinho e sem objetos que possam machucar.

No contexto da pesquisa sexual infantil, vale ressaltar que, assim como brincar com o próprio corpo é algo que os pequenos gostam muito, a maioria das crianças manifesta o desejo de também conhecer e explorar as partes íntimas de outras pessoas: querem olhar, saber como é e até mesmo tocar no corpo dos mais próximos. Por este motivo, é importante que o adulto possa reconhecer nas atitudes da criança a diferença entre a curiosidade infantil que pode estar por trás do desejo de ver e tocar outros corpos e a tentativa de obtenção de prazer a partir do corpo do outro.

No primeiro caso, poder dar espaço e suporte para que as investigações sexuais da criança aconteçam não só é desejável, como também é essencial para seu desenvolvimento. Já quando o toque é uma tentativa de obtenção de prazer a partir do corpo de uma outra pessoa, especialmente se esta não tiver a mesma idade dela, a curiosidade extrapola o limiar do que a própria criança é capaz de lidar tanto do ponto de vista da maturidade corporal quanto do ponto de vista emocional. Nestas situações, é fundamental que o adulto intervenha evitando tal contato. Deixar a criança roçar os genitais na perna de um adulto, ou algo semelhante, por exemplo, é, mesmo que sutilmente, autorizá-la a ter prazer sexual com um adulto.

Quando tal comportamento é observado, este pode ser um bom momento para começar a apontar para a criança os limites entre o próprio corpo e o corpo do outro, e ainda, sobre a necessidade de autorizar e também pedir autorização na hora de tocar alguém.

Retomando à curiosidade saudável, as crianças questionam e investigam as diferenças entre homem e mulher, menino e menina. Através do faz de conta, elas representam e experimentam papéis de mãe, pai, esposa, marido. Elas brincam de médico, despem bonecas e dão banho, brincam de papai e mamãe que se beijam, pela simples curiosidade sobre as diferenças sexuais e de gênero característica desta faixa etária. Imitam e repetem o que veem, ouvem e observam em casa, na escola, nos meios de comunicação e em outros espaços de convivência. Falam em namorado e querem beijar na boca dos pais ou dos amigos, porém, sem a conotação sexual dada pelo adulto. Podem revelar, ainda, a curiosidade pelas cenas do ato sexual (observadas na vida real ou criadas em sua fantasia).

Meninos e meninas estão sempre juntos, sem muita distinção ou grupinhos diferenciados pelo sexo: brincam de casinha, onde ambos podem ser o papai ou a mamãe, jogam bola, dirigem carrinhos, dentre outras brincadeiras.  Nesta idade não existe atitude, roupa ou brinquedo de menina ou menino. Aqui, o que vale é a oportunidade de experimentação; isto significa que meninos, por exemplo, não são ou serão gays apenas porque desejam passar batom ou preferem brincar com meninas. Do mesmo modo como vestem fantasias e se imaginam super-heróis, as crianças também experimentam o sexo oposto.

Entre tantas perguntas que surgem em busca de orientação e esclarecimento, vale a regra das respostas verdadeiras, claras, objetivas e pontuais, de acordo com a maturidade e a curiosidade expressada pela criança. A falta de informação ou inverdades (vindas de dentro ou de fora de casa) acabam por inibir a busca de conhecimento saudável vivido pelas crianças. Isto não significa que devemos responder a elas absolutamente tudo sobre o assunto questionado, nem de imediato (quando não é possível). Informação em excesso pode “bagunçar” a cabeça da criança. É importante estar atento para identificar aquilo que ela realmente quer saber. Procure responder somente o que lhe foi perguntado; caso ela se interesse mais pelo assunto, ou não tenha compreendido a explicação, não se preocupe, ela fará uma nova pergunta na sequência ou em outra ocasião. Acolher o interesse da criança, além de promover seu desenvolvimento afetivo e cognitivo, propicia o fortalecimento da relação de confiança mútua entre ela e seus adultos de referência.

Sendo assim, quando o assunto é sexualidade não podemos esquecer que:

  1. As conversas sobre sexualidade devem ocorrer naturalmente como qualquer outra que temos com as crianças, o que nem sempre é fácil. Porém, se conseguirmos nos despir dos sentidos eróticos que damos para muitas situações poderemos escutar as crianças mais tranquilamente, e assim conversar sobre suas investigações e descobertas sem tanta dificuldade.
  2. Julgamentos e preconceitos, sempre que possível, devem ser deixados de lado para que a sexualidade não seja vista como tabu.
  3. Cuidar do corpo é proteção e não apenas garantia de higiene. Para isso, é preciso ensinar à criança noções de intimidade, público e privado – até onde ela pode ir com seu próprio corpo, com o corpo do outro e o outro pode ir com o corpo dela.
  4. É fundamental respeitar a privacidade da criança quando ela sinaliza vergonha ou outro desconforto diante de assuntos relacionados à sexualidade ou do
  5. Criança é criança, não devendo ser exposta à sexualidade vivida pelo adulto (no banho, no quarto com os pais ou de irmãos mais velhos, na televisão, nas músicas e danças sensuais, dentre outros ambientes e situações). Estes estímulos geram precocidade e deixam-nas vulneráveis.
  6. Existe um limite entre o que é espontâneo e natural para cada fase da sexualidade infantil e o que vai além, como se masturbar com muita frequência, querer ter seus genitais acariciados por outra pessoa, se interessar excessivamente por questões ligadas à sexualidade, repetir cenas sexuais de conteúdo adulto, não ter interesse nenhum pela sexualidade humana, entre outras. Estas situações merecem atenção especial.

Entre inibir as manifestações sexuais das crianças e estimular aquilo que não pertence às etapas de seu desenvolvimento existe um espaço grande, no qual discernimento e orientação com afeto se fazem necessários, permitindo a manifestação das descobertas, da exploração, do prazer e dos sentimentos envolvidos nestes momentos de intimidade da criança para com ela mesma.

 

Nota: Este texto, publicado originalmente em 08/08/2013 no antigo blog Ninguém Cresce Sozinho, foi revisado e alterado minimamente em seu conteúdo original pela autora, Veronica Esteves de Carvalho.

 

Imagem: Google.