Ninguém cresce sozinho | Segredos de família: vale à pena mantê-los?
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Por Patrícia L. Paione Grinfeld

Os motivos que levam uma família a manter um segredo, às vezes atravessando gerações, são sempre singulares. No entanto, todo segredo tem em comum a dificuldade de um ou mais membros da família em lidar com o que há de mais íntimo naquilo que não pode ser revelado.

Isso significa que a dificuldade não está na adoção em si, na reprodução assistida, nas traições, nos abusos de diversas naturezas, nas mortes e abortos, nas opções sexuais ou qualquer outra situação que porventura sejam silenciadas, mas sim nos sentidos atribuídos a cada uma dessas situações, nas fragilidades, frustrações e relações de impotência e poder que alimentam e mantêm o segredo vivo – muitas vezes, apagando pouco a pouco alguns ou “tocando fogo” em outros. Explico.

Um segredo de família tem sempre dois pesos, o de quem o sustenta e o de quem não pode conhecê-lo, e muitas medidas, que são as consequências diretas e indiretas daquilo que não pode ser revelado.

O que não pode ser revelado fica circulando feito um fantasma, “assombrando” um ou vários membros da família. Não é incomum a linguagem corporal denunciar que algo não pode ser falado, mas está ali, presente quando, por exemplo, a criança entra na sala e o adulto muda o tom de voz ou o assunto, quando uma ligação telefônica é desligada de forma abrupta, quando a criança vê na expressão facial do adulto que algo não vai bem, mas ela não pode saber o porquê. Sem poder ser falado, o segredo costuma se manifestar através de medos, hiperatividade, falta de concentração, dificuldade de aprendizagem, insônia, embotamento, entre outros. Muitas histórias são distorcidas ou omitidas, levando aqueles que mantêm o segredo a viver na eterna vigilância ansiógena de cerrar a boca e o coração. A perda de confiança e a insegurança se instauram, e os que são impedidos de ter o segredo revelado ficam sem conhecer pelo menos uma parte de sua história. Injusto, não?

Manter um segredo pode parecer uma grande injustiça, mas no mundo dos afetos, justiça é aquilo que regula as relações. Esse regulador sempre vai depender dos sentimentos e fantasias envolvidos em cada situação. Um segredo se instala e se perpetua não por uma questão de injustos que desejam guardar algo para si, mas pela complexidade de sentimentos ambivalentes envolvidos desde sua origem, e pelas fantasias perturbadoras que o sustenta. O portador do segredo sofre, e por isso precisa de ajuda para lidar com a desilusão de uma situação que não se mostrou perfeita. Ele precisa de ajuda, antes mesmo daquele que manifesta algum sintoma (em geral a criança).

Uma adoção não se torna segredo quando os pais podem lidar, por exemplo, com a desilusão da maternidade biológica. Uma reprodução assistida não se torna segredo quando o luto pela impossibilidade da concepção natural pôde ser suportado. Abusos não se tornam segredos quando existe apoio para ir contra eles. Mortes e abortos não se tornam segredos quando é possível compreender os limites da vida. Bastardia, traições e homossexualidade não se tornam segredos quando a existência de desejos e diferenças são aceitas. E por aí vai.

Desvelar um segredo não é uma tarefa fácil e simples. Os segredos têm uma brutal delicadeza – cutucam eterna e lentamente, machucando pela sua força e seu silêncio. Os segredos mantêm regulada a ordem estabelecida na família, mesmo que a ordem tenha um tanto de desordem. Por isso, é tão difícil trazê-los à tona; sua revelação implica na desconstrução de uma ordem e na construção de outra, o que, invariavelmente, não é nada fácil. Segredos, quando não são aqueles segredinhos temporários que se cochicha no ouvido, são nocivos porque sustentam a ilusão da perfeição.

Não somos perfeitos; precisamos saber e aceitar isso – e transmitir essa ideia às crianças. Precisamos, para nos libertar de um segredo, encontrar um jeito de falar sobre eles.

Nota: Este texto, publicado pela primeira vez em 27/04/2015 no antigo blog Ninguém Cresce Sozinho, foi revisado e alterado minimamente em seu conteúdo original pela autora.

Imagem: Google.

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